quinta-feira, 4 de março de 2010

Mulheres-pássaro, mulheres-fadas


A pedido da minha linda amiga Letícia, retomo a postagem sobre as mulheres bruxas (que você pode ler aqui ), para falar das mulheres-fada e mulheres-pássaro.
Comecei pensando no poder das asas.
O ser humano sempre sonhou em ter asas, já repararam?
Talvez tenha sido o primeiro desejo humano, acho que não foi nem a imortalidade, foi a liberdade.
Acredito que, mirando o céu cheio de seus mistérios, talvez de nossa própria origem (creio piamente nisso), tenha a humanidade em seus primeiros momentos de consciência, a vontade delirante de poder subir aos céus...
Voar.
Ter asas muito se confunde, pelo menos para mim, com o conceito mais cru do que seja liberdade. Daí o fato delas serem dadas aos deuses, aos anjos, aos seres especiais, não a nós, pobres mortais.
A deusa Ísis tinha enormes asas e usou-as na busca por seu amado Osiris.
Mas, que eu não seja injusta, na noite, durante nosso sono, vai planar pelos mundos o nosso espírito. Alguns crêem que só nos sonhos, eu creio que de fato.
As mulheres-pássaro, as mulheres-fadas sabem bem o que é isso.
O ar é seu habitat, mais que qualquer outro elemento. Por isso, se não são livres, anseiam desesperadamente por isso. Habitam no topo das coisas.
Planam.
Mas também, e por esse motivo, muitas vezes são inaptas à vida comum. Se sentem mais estranhas que qualquer outra mulher. A beleza das coisas, para essas mulheres aladas, passa por uma estética toda especial, muitas vezes racionalizada.
Se sangadas podem ser cruéis por sua frieza de ave de rapina...
Todas nós temos um pouco de cada uma dessas “mulheres selvagens”, como diria Clarissa Pinkola Estés em seu livro Mulheres que correm com os lobos.
Mas sempre uma delas se sobressai e aí podemos ter uma noção da nossa natureza mais profunda...

terça-feira, 2 de março de 2010

Viagem no tempo: papéis de carta das décadas de 80 e 90


São só alguns.
Mas estão lá. No fundo da caixa florida de Pandora, aquela que abri no post passado hehehe
Já foi uma coleção de pelo menos 50 papéis suavemente decorados.
E comprávamos em bloquinho lembram? Por isso, nós garotas românticas, trocávamos alguns papéis entre nós para aumentar a coleção.
Eu tinha uma pasta, daquelas com plásticos, para organizar os papéis e folheá-los quantas vezes quisesse sem estragá-los.
Havia os raros e os muito caros, tá pensando o que?
Eu adorava os de gatinhos, bichinhos.
Tinha os papéis com casais de criancinhas, e aqueles das mocinhas românticas andando de bicicleta ou lendo livros num jardim bucólico... ooowwww como eu queria ser uma francesinha daquelas hehhehe
Apenas quem foi adolescente na década de 80 e 90 sabe bem o sentido de ter uma coleção de papéis de carta.
Vasculhando na net tive uma grata surpresa, pois ainda existem coleções intactas tanto de colecionadoras que continuam comprando e trocando, quanto pastas com mais de 200 papéis para vender! Que coisa linda!
Encontrei o maravilhoso blog da Ana Clara que disponibiliza para cópia e impressão uma boa quantidade de papéis de carta, vão lá e confiram: http://papeis-de-carta.blogspot.com/

segunda-feira, 1 de março de 2010

A máquina do tempo


Outro dia, estava arrumando as caixas aqui no meu cantinho de estudo, que chamo de escritório hehhehe, quando ao abrir uma das caixas me deparei com uma máquina do tempo.
Achei aquilo pouco auspicioso... humm...
Mas... bem, depende do ponto de vista...
Como na caixa de Pandora, pularam de dentro algumas dezenas de cartões, cartas, bilhetinhos e tudo o mais que eu, uma canceriana típica, guardara com esmero por anos, numa bela caixa florida.  
Enquanto da caixa de Pandora saem uma porção de coisas ruins e só uma boa – a estrela - aqui o negócio não foi tão grave.
Além dos cartões, que li, um a um, relembrando amigos, aniversários, natais, também encontrei cartas de amor.
As que recebi e umas que nunca entreguei.
Lindas.
Como eu sabia amar, enquanto não sabia nada da vida...
Depois dessa viagem no tempo,  dessa passagem mítica – a abertura da caixa – lá no fundo da caixa achei também minha coleção de papéis de carta!
Ai que saudade e que recordações me trouxeram...
Mas, pra não ficar uma postagem enorme conto sobre essa outra viagem amanhã, ok?
Beijos
Ps: lembrei o tempo todo daquela música do Roberto Carlos "escreva uma carta meu amor e diga alguma coisa por favor..."

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Quero muito uma gatinha fofinha


Olá pessoas.

Gostaria de escrever sobre coisas alegres hoje, mas não dá.

Estou triste.

Triste mesmo.

A semana que passou não foi boa para mim. Foi daquelas: difíceis!

Mas de tudo, o mais triste foi perder meu gatinho Toinho.

Esse aí da foto.


Não é fácil. Claro que entendo a morte como algo maior que um simples perda. Mas também sinto a morte, para os que ficam, como algo bem cruel... Toinho não era um ser humano, mas era uma pessoa da família, como são todos os meus animais, respectivamente: Lili, Pretinho e Chicó.





Bem, com a morte aprendi que não tem volta, não tem acordo. 
Mas pro nosso coração ficar menos triste há uma solução: um novo amiguinho. 
Sempre faço assim. 
É também a oportunidade de outro sersinho ser feliz comigo como mãe hehehhe.


Então, to fazendo um pedido a vocês amigos e amigas que sempre visitam esta casa: quero muito adotar outro gato. Mas não quero mais um macho, Toinho saía muito, mesmo castrado, e foi assim que ele comeu veneno e morreu.


Por isso gente, quero uma gatinha. Mas dessa vez, quero uma de raça ou raciada com persa. Sempre sonhei em ter uma gatinha fofinha.


Fica o pedido para adoção. Se souberem de alguém querendo doar, por favor me avisem, ok?


Beijos nos corações e toquemos o barco...

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Doces recordações

 
Tenho doces recordações do meu tempo de criança, quando eu era apenas expectadora imersa num mar de sons, cheiros e sabores, que hoje me parecem ser como bolhas de sabão coloridas e translúcidas:
Cedinho sentávamos ao redor da mesa do café, meus pais, eu e meu irmão. Louça jovialmente colorida e um tanto marcada pelo uso, dando um ar de familiaridade displicente. O cheiro de café fresquinho se mesclava, não só aos pães, à manteiga, ao suco e à geléia, mas sobretudo ao doce frescor que só existe nas manhãs. Um cheiro verde, fresco, ensolarado, colorido.
O tilintar dos talheres e das xícaras, ao pousarem nos pires, se misturava, quase numa melodia, às vozes um tanto quanto sonolentas dos presentes na sala arejada. Cortinas claras e esvoaçantes deixavam ver as janelas de vidro transparente banhadas por um sol ainda tímido, mas que já começava a secar o orvalho que teimava em lançar seus brilhos sobre as folhas das árvores, sobre as pétalas das flores, no jardim. Da rua vinha, num crescendo, o murmurinho do dia que começava, juntando-se à algazarra dos pardais nas roseiras e nas árvores da calçada.
E a conversa prosseguia sem pressa, aos poucos se tornando mais acalorada, à custa da cafeína e do ânimo trazido pelo bolo de laranja.
Em meio aos sons e doces aromas da manhã, ao final, sempre sobressaiam  as leves notas de lavanda, dos banhos e asseios matutinos, como um prenúncio do tilintar das chaves, que meu pai tirava do bolso, anunciando a hora da partida, da saída do doce ninho para a vida adulta...


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Viver


VIVER
Carlos Drummond de Andrade

Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?

E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?

Isso, ou menos que isso,
uma noção de porta,
o projeto de abri-la
sem haver outro lado?

O projeto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?

Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O magnífico significado da chave



A chave é um símbolo muito recorrente nos contos e mitos do mundo.

No conto do Barba-azul a chave é a saída para a mulher ingênua, na história da Donzela Teodora as respostas corretas são as chaves para a salvação dela e de seu dono. Elas abrem as portas da liberdade de escolha para ela e a sobrevivência do mercador.

Ela figura, em última instância, como um exemplo para as mulheres que se portam como presas ingênuas das circunstâncias e da pressão cultural. A história da donzela Teodora grita a cada página: “esta é a força da mulher, seu conhecimento de alma, as sete artes liberais”. Lembra-nos da velha forma de se referir a algo muito escondido como um “segredo guardado a sete chaves”.

A sábia Teodora é a personificação imaginária dessa potência que acaba por romper a norma cultural. Ela é como Ártemis ou Diana, livre. Na sua história Teodora nega-se a casar com o rei, pois para ela seria como cair na mesma armadilha da esposa do Barba-azul, tendo aprisionada sua alma selvagem.

“Faça o que quiser”, diz o Barba-azul. “Donzela podes pedir, dou-te palavra de honra fazer-te o que exigir, de tudo que pertencer-me, poderás tu te servir”, declara o Rei Miramolin Almançor.

Frases semelhantes que escondem o não dito: “desde que dentro dos limites do meu território, dentro do permitido”. Se ousar transgredir esta norma implícita, a mulher é perseguida, punida e até morta. Portanto, tanta cortesia há de ser muito bem analisada.

Este discurso de liberdade é falso, pois oculta a existência de limites bem definidos. Impede a mulher de conhecer o jogo de poder que existe por traz do que Foucault trata por discursos ou jogos de verdades. Como Psique ao espreitar Cupido, para conhecer a verdadeira face de seu esposo, Teodora acaba por desvendar uma falsa felicidade.

Como nos diz Clarrise Pinkola Estés: Não lhe é permitido registrar o conhecimento sinistro a respeito do predador, muito embora, bem no fundo da psique ela já compreenda bem a questão.


O Barba-azul é a metáfora do discurso armado que procura circunscrever os limites do permitido no campo do conhecimento, agindo de forma a estabelecer as interdições para a mulher neste campo.

Ele proíbe a esposa de usar a pequena chave que a traria de volta à consciência de si mesma.

Para Estés, proibir uma mulher de usar a chave que leva à consciência é o mesmo que lhe arrancar a Mulher Selvagem, seu instinto natural de curiosidade e sua descoberta do que ‘se esconde por baixo’.


Sem esse conhecimento, que advém da própria curiosidade, a mulher está desprovida de proteção adequada. A obediência ao Barba-azul, ao rei ou qualquer outro elemento que figure como predador, assim como às normas restritivas da cultura, significa a morte para o espírito. Então, ao optar-se por abrir a porta de acesso ao horrível quarto proibido, ou ao voltar-se para olhar o que não se deve, escolhe-se a vida, a possibilidade da criação, o movimento, a interação com outros mundos.

A porta fechada, por sua vez, aparece nos contos e mitos como uma barreira psíquica, um impedimento colocado à frente do segredo, que bloqueia a possibilidade de tomarmos conhecimento do que já sabemos intuitivamente. A porta aparece, ainda, como uma possibilidade de travessia, de passagem para o desconhecido. Possibilidade de sair de uma condição para entrar em outra, saída da ignorância para o conhecimento.

Assim, a superação dos obstáculos se dá através do “antídoto mágico correto”: a chave.

As bruxas para os íntimos


As mulheres-fadas, mulheres-lobo, mulheres-pássaro - as bruxas como são mais conhecidas – podem, para os íntimos, ser uma benção ou uma maldição. Você já teve alguém assim perto de você?

Se não, precisa conhecer.

Primeiro exaltarei as maravilhas de ser e ter uma bruxa na vida.

Monotonia não existe perto de uma mulher-lobo, para elas o mundo todo é encantado. Quando chove, correm para banhar-se nos pingos com o mínimo de roupa que for possível; se é noite, passam horas admiradas com as estrelas, com a lua, de quem são velhas amigas.

Se ficam tristes, comem chocolate, tomam sorvete, porque não são escravas de nada, menos ainda da estética imposta ao corpo feminino; têm longos cabelos porque são seus véus e o encanto da sereia, o mistério da cigana.

Se estão felizes gargalham alto, dançam, rodopiam.

Amam e odeiam na mesma intensidade, e não se arrependem de nada. Mas mudam de opinião se preciso, pois tudo no mundo muda. E elas sabem muito bem sobre as marés.

Se você não tem uma mulher-fada perto de você, corra atrás dessa dádiva! Elas dão sorte, alegria, intensidade, razão de ser do mundo e das coisas.

Eu não brinco quando digo isso.

Porque mulheres bruxas não são para brincadeiras.

Elas podem ser más como é a natureza quando desrespeitada. São fúrias. Se são água, alagam, minam, dissolvem até a carne; se são fogo, consomem sem perdão, se alastram queimando, transformam tudo em cinzas; se são terra, engolem, sufocam, soterram, pesam, deixando somente escombros; se são ar, de nada adianta fugir, pois estão em toda parte, até dentro de você, se sopram com fúria ou constância, pouco importa, o fim é o precipício.

Mulheres-pássaros são livres, mulheres-lobos são selvagens, mulheres-fadas não pertencem a um único mundo...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Eu gosto de me pintar

Moça araweté pintada de urucum. Foto: Eduardo Viveiros de Castro


Eu gosto de me pintar.

Assim, como quem vai pra guerra. Ou pra festa. Tanto faz...

O que eu gosto mesmo é de me pintar, de me colorir, de me recriar.
Destacar os olhos, como se fazia num longínquo templo nas areias quentes do Egito. Imitando o traçado selvagem dos felinos, um traço acima, um traço abaixo, em longas sinuosas linhas negras. Depois vai cor nas pálpebras.

Como gosto de me pintar.



De demarcar territórios: aqui os olhos, depois as maçãs, por fim a boca...
Pintar-me como as índias. Um traço largo de urucum e pintas de onça com o suco do genipapo.

Gosto tanto de me pintar que a tinta se expande aos cabelos. Tinta não, como diria um amigo meu, coloração. E vou ao delírio das cores!


Vermelho por favor! Sempre pelos rojos!
Parece que me fizeram sem cores, tudo um só castanho sem graça, modorrento. Queria mesmo é ser ruiva e colorida natural: cabelos fogo, olhos céu, pele leite.


Como não sou índia lá na taba, nem ruiva e menos ainda egípcia – infelizmente – compro a coloração e logo o vermelho é parte de mim. O azul vai nas sombras e o rosado nas maçãs. O negro contorna os olhos.
Cigana!
Bruxa!
Mística!
Já me rotularam tanto.
E eu simplesmente gosto de me pintar.

Eu mesma. Foto: Verena Viana

Talvez sejam resquícios de velhas heranças, vai saber...

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O mundo em papel couché


Não sei porque, mas hoje passei o dia inteirinho nostálgica.

E quando bate a nostalgia, assim, em pleno sábado pós Carnaval, não é bom sinal.

Não mesmo.

Pior que não fiquei, na rede balançando horas, lembrando de velhos amores ou de amigos distantes. Não.

Fui mais atrás, mais longe no tempo, até a infância.
Infância querida... Como diria o poeta Gaston Bachelard.

Lembrei sobretudo dos livros. E eram muitos, uma biblioteca que meu pai comprou por uma bagatela, quando veio de Brasília. No meio de tantos livros uma coleção, uma enciclopédia para crianças era a minha preferida.

Lembro da cor da capa, branquinha, capa dura com letras douradas. E o cheiro! Ah aquele cheiro de livro novo! Toda criança conhece, ou pelo menos deveria conhecer esse cheiro.

Não existe outro igual.

Era uma beleza a enciclopédia, e tratava de descrever com texto e ilustrações coloridas sobre papel lizinho e brilhante (que hoje eu sei que se chama papel couché), as maravilhas do universo infantil.

Algumas dessas imagens me marcaram muito. Uma delas falava já em preservar o nosso “planetinha”, e em tons pasteis sentava-se sobre o planeta Terra uma criança desproporcionalmente maior que ele. Quando vi, alguns anos depois uma ilustração do Pequeno Príncipe em seu planetinha, fiquei chocada de tão maravilhada!
O universo de uma criança não tem limites. E como é importante o que nos rodeia nessa fase.

Constrói nosso caráter.



O meu foi forjado, sempre, na base da Literatura. Posso dizer que conheço o mundo viajando pelas páginas dos livros.

Além dessa belíssima enciclopédia havia um livro bem fornido, devia ter lá suas 300 páginas, com histórias francesas. Nesse as ilustrações eram apenas à bico de pena, e eu, dada a tantas cores, tasquei lápis de cor nos desenhos. Como poderia a língua do cordeirinho não ser rosa??

Também passei muitas horas embaixo do pé de goiaba do meu quintal me deliciando com as aventuras de Peter Pan! Quando se é criança tem-se todo o tempo e o espaço do mundo!

Estou nostálgica mesmo...

Não sei se só dos livros. Talvez do tempo que não volta mais...

Mau sinal para uma mulher de 35 anos que precisa correr contra o tempo. Não sei por que, nem sei pra que correr tanto!

Ai, hoje, só hoje, gostaria de voltar a ser aquela criança com aqueles livros.

E ver o mundo bem mais belo e colorido no papel couché...