terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Uma minha e outra de Teresa


POESIA... eu sou

Fui criando
criança e ciranda.

Crendo no possível e na fantasia
porque é preciso ser leve
levando a vida criando
poesia...
eu sou

Então toma a minha mão
dancemos
a roda ciranda
criando

Crianças fazendo poesia pela noite.

Luciana Luz

Eu sou POESIA...

Invento

Deponho
suponho e descrevo
a pulso

subindo pela fímbria
do despido

Porque nada é verdade
se eu invento
o avesso daquilo que é vestido.

Maria Teresa Horta

domingo, 19 de dezembro de 2010

Esse tempo todo




Eu tenho toda a ansiosa paciência do mundo.
Fico aqui espectadora, tentando, sem expectativa, aguardar.
Em voltas indiferentes os ponteiros dos relógios, humanamente mundanos, giram.
E eu aguardo as marés da vida.
Vagando em paciência infinita, as ondas que quebram na praia com estrondo de nascimentos, espalham sal diluído. Alisando a beira do mar.
Eu areia, hora solta ao vento, açoitando as pernas do tempo, hora compacta, humidamente unida e lisa.
Vôo nas horas aladas, acento, compacta imobilidade circunflexa.
Esperando... sem esperar.
Esperando... sem esperar.
Esperando algo. Não sei bem o quê...
Devo ter cuidado?
Pergunto ao tic-tac o que é pior: esperar ou não saber o que esperar?
Só o som do tempo...
Espectadora sem expectativa.
- Prestar atenção – voz de homem?
E o que eu faço com o que se revolta lá pelo meio do oceano fértil e vivo?
- Transforma em lágrimas – novamente a voz.
Nem todo choro é de tristeza, racionalizo...
E tenho algo que fazer com esse tempo todo.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Só um conto



Dizem que no final do ano, no Natal, quando as energias de boa parte das pessoas do mundo se modificam, algumas coisas estranhas, bizarras ou simplesmente mágicas podem acontecer. Isso talvez explique o que aconteceu... ou não.

Cidade, carros, luzes de Natal.
Ela tomou a direção da fila interminável que se formou diante do sinal de trânsito.
Pessoas agitadas, papai Noel na frente do shopping exageradamente iluminado, um rio de faróis vermelhos...
O sinal abriu e fechou duas vezes, até que ela pudesse parar a alguns centímetros da faixa de pedestres.
Um rapaz, cabelo longo amarrado num rabo de cavalo. 

Clavas de fogo. Malabarismo. 

Chapéu para que as pessoas dessem uma contribuição por sua arte.
Ela procurou na bolsa, naquele bolso pequeno onde sempre havia moedas. Alguns minutos se passaram, como num espaço onde o tempo ficasse suspenso. Notou um estranho silêncio.
Cinqüenta centavos.

Quando levantou a cabeça, deparou-se com o rapaz malabarista na janela do carro.
Olhos extremamente expressivos.

Não teve medo, susto ou coisa que humanos possam sentir.
Como definir aquela viagem, sendo ela mesma humana?
Cinqüenta centavos ficaram eternos minutos suspensos entre a mão dela e a dele.
- Gracias hermosa... – pode compreender a moça, dentre uma série de frases que ele melodiou, sucessivamente, como num sensual tango argentino. Palavras nas quais ela foi mergulhando como num rio de águas mornas. Deixando-se levar pela descida macia e envolvente daquele sotaque.
Maravilhosa sensação. 
Olhos claros.  O calor do fogo.
Espaço entre os espaços.  Tempo em continuidade suspensa.

Ela não soube em que momento despertou daquele insano e surreal instante. Como retomou a direção do carro e chegou viva em casa.
Lembrava-se mesmo dos olhos, da voz e, acima de tudo, do toque suave daquela mão chamuscada pelos malabares de fogo.

E nada explicava porque jazia incólume no banco de passageiros, como uma testemunha da insanidade  mesma dela, aquela moeda de cinqüenta centavos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

As coisas simples


Chove, neste momento. 
O céu de um rosa metálico esteve em contrações de parto há dias.
Sobre nossas cabeças o peso da hora. 
Mas chove e todos os seres, animados e inanimados, se sentem mais leves. Olho pela janela e vejo que a noite ainda nova não escurece o céu roseu, tão grande sua força de mãe cuja a bolsa rompe e nada pode deter a seqüencia das coisas. Ainda delicada é a água que não cai, se derrama, meio que desconfiada dos telhados mornos. E se avizinha dos nossos sentidos um cheiro arcaico de terra, poeira e água celeste. Cheiro de chuva, como se diz. 

Gosto muito de chuva.

Saio para deixar-me banhar nessa dádiva que é vida, afinal.
Experimento a felicidade das coisas simples e gratuitas. E fico pensando por que  tantas pessoas tem um medo irracional da chuva.

Talvez só as bruxas não tenham...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Uma conversa com a Mestra

Foto de Toni Frissell


Deixar-nos levar.
Fluir.
Aceitar serenamente o rumo dos acontecimentos, ou o não acontecimento.
Eis um exercício precioso! – Disse a Mestra, colocando as mãos para dentro do quimono rústico.
A não-ação tem um poder extraordinário.
O Caos, o nada, o vazio.
A quietude extrema.
- Não pense, não aja, não deseje – completa Ela, suavemente.
Simplesmente seja.
Flutue na correnteza, sem resistência.
- Você sabe flutuar? É preciso deixar o corpo leve, não exercer qualquer força motora. Naturalmente a água a sustentará e você, metade submersa, poderá ouvir o silêncio que existe dentro de você mesma.
Uma voz fala, não ouça, mas entenda. Não-ação.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Quando o outro não é o que esperamos


Conheceram-se por um acaso intelectual. Amizade apenas, por que não? Ela, moça sensível, ele homem engajado.
As conversas fluíram como um rio largo e veloz, se espraiando em margens cada vez menos definidas. Gosto de você, como és encantadora. Lindo, linda. E os olhos do gostar moldaram, retirando os excessos, a estátua do bem querer. Que bom, é assim mesmo. Estamos bem. 
Até que o dia de encontrar-se de fato chegou. Aeroporto, ansiedade, expectativa. Finalmente frente a frente. Hora a hora, crescendo a certeza de que o outro não era o que se esperava.
- Que decepção maravilhosa! Não és o que eu esperava! – exclamou ele.
- Nem você é como eu imaginei! – respondeu ela, olhos cheios de lágrimas.
Eram mais, eram humanos. 
Que belas imperfeições, gestos, sorriso, a mala que cai. O cabelo ao vento, a luz do sol que nasce enrugando a testa, ofuscando qualquer irrealidade. Que belo é o que vai pelo coração!
Não que houvesse máscaras, mas havia bites, distância e tempo a limitar. Aqui são almas, células, cheiro, química, carne.
E a manhãzinha, sempre mais doce, o taxi, o quarto.  E agora, em meio aos assuntos vagos e inacabados, o desejo humano de tocar, finalmente, tudo aquilo que tão maravilhosamente os surpreende.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sentimentos


Devia guardar seus sentimentos. Bem guardados. Sentimentos assustam.

Devia lembrar que as pessoas neste mundo estão acostumadas às máscaras frias de uma tragicomédia tão constante que se torna a única realidade possível. 

É preciso cuidado, cautela.

Ninguém quer que os sentimentos comandem o mundo em que impera a racionalidade, a assepsia, a luz ofuscante digital.  Não há tempo para isso. E quem se importa com isso?

Por isso devia guardar bem seus sentimentos. Deixe-os em casa, a rua é selvageria. Deixe-os num cofre, com segredo. Deixe-os embaixo do travesseiro.

Sentimentos assim não podem ser verbalizados. O verbo realiza. 

Devia deixar seus sentimentos enterrados onde houver ainda uma velha árvore. Lá, eles nutrirão as raízes, se perpetuarão incólumes. E a seiva o carregará para a copa, de onde sempre serão levados pelo vento, sussurrando ao ouvido de algum poeta, quem sabe um dia...

E nesse dia talvez ele escreva algo assim:

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
seu dorso frio é campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania*.

*Vinícius de Moraes

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O astrólogo


 “Eu sou de Gêmeos. Sígno da constelação zodiacal...”
E danou-se a falar profusamente sobre os astros. Coisas que ele nunca ouvira em sua vida.
Mas vinham dela: as palavras, por certo; os gestos, tão belos; aquela boca, aquela voz, aquela pele...
“De que signo você é?” Perguntava a voz.
“Dizem que sou de peixes”. E tornara-se mudo até o fim. Já que nada conhecia do assunto e, nesses casos, impressiona mais o silêncio do bom ouvinte que a balela arriscada do Don Juan.
O fato é que daquele momento em diante empenhou-se em tornar-se exímio especialista na arte dos astros, nas linhas, quadraturas, triangulações. Nos aspectos favoráveis ou não de Saturno, de Plutão e da Deusa do Amor, Vênus. Leu o que pode em tempo recorde.
Queria impressioná-la para adentrar-lhe a alma de mulher misteriosa. O problema é que ao fim as longas conversas encerravam num simpático “legal conversar com você”.
E ele, sujeito solitário, ficava mais solitário ainda. Solidão que os livros cheios de mapas e cartas astrais não aplacavam. Lia e relia a palavra “astrologia”, lembrando como sua boca se movia ao falar. “És praticamente um astrólogo”.
ASTROLOGO. Ela dizia por dentro de um sorriso constante.
Mas a solidão não amainava com tais lembranças. E, pobre homem, soterrava o corpo e a alma numa agora confusa, difusa solidão, para além da solidão. Se é que isso é possível.
Se antes solitário, agora solitário ao extremo. Descobrira a existência da solidão de fato.
E ela dizia, com despropositada naturalidade “hoje não poderei conversar contigo, vou sair com meus amigos”.  E o que restava a ele era a consulta compulsiva dos astros, os cálculos. Quando não, ouvia música, fingia ler, com sofreguidão coisa nenhuma. Porque nada era ela. Nada nunca foi.
Até que depois de um dia vinha outro dia. E tabelas, e signos e aspectos planetários o levavam ao tesão. De tudo não tinha nada. Contemplava.  Muito.  E isso era tudo... ou nada.
Mas era sujeito persistente, estava em seu mapa astral. Tanto que ao fim de algumas rotações anuais já se poderia considerar um homem realizado: ao menos tornara-se excelente astrólogo!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Uma segunda chance




Dias de chuva são como lágrimas, lágrimas cósmicas se materializando.
Pensava sobre isso, a moça na janela. Cabelos molhados, depois do banho.
Mais água.
Nos olhos, no corpo, no mundo.
A moça pensava nele. Sempre pensava nele. Em como, agora, diante da chuva batendo na janela, podia-se crer numa segunda chance. Um amor tão grande merecia isso.
Merece.
Ele havia corrido até ela, assim, num dia de tristeza cósmica. Fluindo rios do céu, caindo e correndo pelo asfalto. Levando seus pés até ela. Magnética e perigosamente até ela.
Uma segunda chance.
Debaixo da marquise, esperaram a tristeza passar. Mas não estiava. Nunca. Ele segurou sua mão, molhados. Água nos cabelos, nos olhos, no corpo, no céu. Implorou, chorou pela segunda chance.
Suas lágrimas em meio ao cosmos tristonho daquele dia...
Uma segunda chance pode vir com um toque de campainha.   
Agora.
Abre-se novamente a porta e lá está: o abismo.
Sem medo se deve pular. Com toda a alma, pular.   
Para uma segunda chance, afinal quem pode ter medo da chuva?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Cartas não têm você


Chegavam cartas, todos os dias. Às vezes duas no mesmo dia.
Palavras.
Tão profundas, encrustadas na bela pedra prosaica. As linhas em branco gritando coisas fortes.
Como eu queria...
Como eu te...
Aqui faz frio, ainda é dia. E as cartas se repetindo na eternidade dos instantes.
Recebia-as todos os dias, cumprimentando o carteiro com ar sonolento, cabelo desgrenhado, loucura feroz. O carteiro sempre com piadinhas sobre tantas cartas e tão pouco sono...
E as palavras pulando da folha bela e distante. Falando sobre coisas boas, tornando insuportável sua própria existência.
Como seria bom você aqui... gosto de ti.
As cartas lembram as músicas, as músicas às cartas. Palavras vivas, tão profundas, encrustadas nos gemidos mudos. Reverberando noite a dentro, pelo cofre frio da distância.
E tantas linhas em branco gritando coisas fortes.
Cartas não têm toque, não tem cheiro, não tem você...