quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Meu bem



Você sabia?
Meu bem, quando eu escrevo
Poesia eu choro

Nada de novo,
Você já viu isso, meu bem?

Choro e faço blues
Mas, não é tristeza
É estado poético

As lágrimas que choro
são cristais demais
que tenho na alma

Assim,

guarda esses que te dou
Porque quando eu choro
oferto-te essas pequenas luzes

Cristais demais na minha velha alma

domingo, 9 de janeiro de 2011

Aaah a Verdade...


Allah Hu Akbar! Allah Hu Akbar!
Deus criou a mulher e com ela criou a fantasia. Foi assim que um dia a Verdade, coberta apenas com um véu transparente, chegou às portas de um lindo palácio, desejosa de conhecê-lo por dentro. Quando soube que essa mulher nua, coberta apenas por um véu, chamava-se Verdade o sultão Haroun Al-Raschid não permitiu que ela entrasse em seu palácio. “Imagine o que ia ser de mim e de todos aqui se a Verdade aparecesse diante de nós? Estaríamos todos perdidos, sem exceção”, disse ele, alarmado. A Verdade então partiu triste. Mas...

Deus criou a mulher e junto com ela criou a teimosia. E a Verdade, não se dando por vencida, cobriu-se dos pés a cabeça com peles grosseiras, deixando apenas o rosto de fora e foi tentar entrar no palácio. Quando o guarda viu aquela mulher horrivelmente vestida quis saber seu nome o que ela queria. Ao que ela respondeu: “sou a Acusação e exijo uma audiência com o grande senhor do palácio”. O sultão tremeu de medo ao saber que a mulher mal vestida que queria entrar em seu palácio se chamava Acusação. “Nem pensar. Já imaginou o que seria de mim e de todos aqui se a Acusação entrasse nesse palácio? Estaríamos todos perdidos, sem exceção”. E mais uma vez mandou a Verdade embora. Mas, a Verdade não se deu por vencida, pois...

Deus criou a mulher e junto com ela criou o capricho. A Verdade então buscou pelo mundo as vestes mais lindas, feitas de veludo, brocados e bordados de fios multicolores. Enfeitou-se com magníficos colares de pedras preciosas, brincos e pulseiras do mais fino ouro e perfumou-se com essência de rosas. Cobriu o rosto com um véu bordado de fios de seda dourados e prateados e lá foi tentar entrar no palácio do sultão Haroun Al-Raschid. Quando o guarda do portão viu aquela mulher deslumbrante como a Lua, perguntou quem ela era. E a Verdade respondeu com voz melodiosa: “eu sou a Fábula e gostaria de encontrar-me com o sultão deste palácio”.

Os olhos do sultão brilharam quando ele soube que uma mulher tão linda quanto uma rainha se chamava Fábula e deseja entrar em seu palácio. “Mas que grande notícia! Para que ela seja recebida como merece, ordeno que cem escravas a esperem com presentes magníficos, flores perfumadas, danças e músicas festivas”.

Então as portas do grande palácio de Bagdá se abriram graciosamente e por elas finalmente a bela andarilha foi convidada a passar. E foi desse modo que a Verdade, vestida de Fábula, conseguiu conhecer um grande palácio e encontrar-se com Haroun Al-Raschid, o mais fabuloso sultão de todos os tempos.

Conto: Uma Fábula sobre a Fábula
Minha vida querida - Malba Tahan

domingo, 2 de janeiro de 2011

Num sonho



Num sonho com você
Éramos crianças
Eternos

Mas fomos perseguidos pelos brinquedos
E fugimos
Pelo atalho

Tomando as mãos corremos
E todos sorriam
E nos escondemos
Num rabisco
Na parede

A descoberta do amor


“[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
       Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.”

Clarice Lispector

Texto extraído do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Todos queremos um mundo melhor

Reproduzo a postagem do blog do Luis Pellegrini. 
Um Feliz Ano/Mundo novo começa com consciência e mudança agora!


Robert Happé, pensador holandês contemporâneo que visita com frequência o Brasil, dando cursos e palestras, passa neste vídeo uma mensagem essencial. Vale a pena ouvir e refletir sobre suas palavras. Elas contêm bons conselhos para a libertação.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Poesia: fulô para um homem


Pela Fulôresta Emcantada
Dá-me licença poética para passar
Por entre as vestes verdes
Desfolhar-te.
É o que me restafulô cantadaem verso
Verde é ver-te por esta lente

Por esta Fulôresta, meu bem
Teu rosto contemplar
Dá-me licença, poeta?
Que vou entrar, fulôrecente

Emcantada te dou pelas letras,
Que são flora e fauna deste lugar,
Palavras desfolhando por ver-te
Sorrir, bem querer, gostar.

Te quero bem.
Bem-me-quer beija de longe
Tocando as delicadas pétalas
Das letras desta fulô que resta
Encantada e linda
Na solitária colina fulôrida.


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Uma prece à Ísis dos Bérberes

 Templo de Ísis - Sabratha, Líbia.

Sondei o espelho eterno.
Uma miragem antiga.

Um templo, colunas de mármore rosa.
O mar. Mantos claros, drapejados.
O Sol e o céu azul.

Sacerdotisa de Ísis.
Líbia, Bérberes, Tuaregues.
Um templo para Ísis.

A estrela que surge do mar –
O mar do crepúsculo.
Eu também sou Ela.

E as marés das almas humanas me pertencem.
Marés que fluem e refluem
Na escuridão silenciosa e íntima que governa a humanidade.

Hera nos céus, na Terra Perséfone.
Levanah das marés e Hécate.
Diana da Lua, Estrela do Mar – Estela.
Ísis Desvelada, Éia, Binah, Géia.

Rasgar o papel de presente dá sorte! kkkkkkkk

sábado, 25 de dezembro de 2010

Compartilho

Compartilho com vocês a honra de ter recebido uma poesia de um dos mais importantes escritores e poetas do Rio Grande do Norte, Nei Leandro de Castro.  Estava guardada e, por esses dias, me dei conta que uma coisa assim não podia ficar escondida. Lembro-me dele dizendo que o faço pensar em Veneza...


Poema só para Luciana

Entre pessoas que brincavam com palavras
 - lavras, larvas de lã -
trazias Pessoa pela mão
e o saudavas na claridade da manhã.
O gênio do poeta estava à mostra:
esculturas de luz na palavra dura.

Em ti, um corpo esculpido em cor suave
com os tons de arco-íris da ternura.
Luz, Lúcia, Ana, Luciana, luzias
na manhã de Pessoa, de pessoas
que fugiam da sedução como quem foge
do canto da sereia que docemente ressoa.


Nei Leandro de Castro (em 19/08/07)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Papai Noel: deus pagão ou cristão?


Texto postado em 2008 na Revista Época.

Luís Antônio Giron
Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI18668-15220,00.html

Acreditar em Papai Noel ainda é um assunto polêmico, mas já foi mais. Na véspera de Natal de 1951, o bom velhinho foi queimado numa fogueira por fiéis católicos no átrio da Catedral de Dijon, na França. O grupo de linchadores religiosos acreditava que incendiar Papai Noel era um gesto de afirmação religiosa, pois o personagem natalino não passava de um deus pagão e, portanto, anticristão. Segundo o manifesto que os fiéis divulgaram na ocasião, "não se tratou de um espetáculo, e sim de um gesto simbólico. Papai Noel foi sacrificado em holocausto. De fato, a mentira não pode despertar o sentimento religioso na criança e não é, de modo algum, um método educativo – que outros digam e escrevam o que quiserem (...)". Poucas horas depois, na mesma cidade, Papai Noel "ressuscitava": ele apareceu na festa promovida pela prefeitura da cidade para animar as crianças.

O episódio de sacrifício e ressurreição serviu ao etnólogo francês Claude Lévi-Strauss para escrever um ensaio sobre as razões da moda do culto a Papai Noel, um rito transportado dos Estados Unidos para a Europa, e ainda novidade em 1951 na França. O resultado é o livrinho O Suplício de Papai Noel (56 páginas, R$ 25,00, CosacNaify), agora lançado no Brasil com tradução de Denise Bottmann. A ocasião do lançamento é dupla: a proximidade do Natal e o aniversário de cem anos de Lévi-Strauss, completados em 28 de novembro. O livro vem acondicionado em uma meia vermelha, acessório típico de Papai Noel.

O Suplício de Papai Noel oferece uma leitura saborosa e intrigante. É uma forma acessível de o leitor tomar contato com o método de análise de Lévi-Strauss, o fundador do estruturalismo. E uma deixa para discutir um assunto que parece meio ultrapassado: você acredita em Papai Noel? Em caso positivo, você se considera um pagão?

O etnólogo estuda o surgimento de um novo rito, o de Papai Noel, mostrando que não se trata apenas de uma importação cultural, e sim uma manifestação legítima de religiosidade.
Ele divide o ensaio em duas partes. Na primeira, compara Papai Noel com outras crenças correntes. Na segunda parte, percorre a história ocidental para demonstrar que o Natal é uma comemoração adaptada das saturnais romanas – festas que aconteciam entre 17 e 24 de dezembro, que incluíam, entre outras atividades, dar presentes para crianças.

Para Lévi-Strauss, Papai Noel nada mais é do que uma reencarnação de Saturno e dos ritos de aproximação entre vivos e mortos – estes representados pelas crianças. A conclusão do estudioso surpeende: ao sacrificar Papai Noel como se fosse uma heresia, os fiéis de Dijon restabeleceram um rito pagão, o do sacrifício do deus Saturno no final das saturnais. "A Igreja não está errada quando denuncia na crença em Papai Noel o bastião mais sólido e um dos campos mais ativos do paganismo do homem moderno", escreve Lévi-Strauss. "Resta saber se o homem moderno não pode também defender seus direitos de ser pagão." Ele diz que há um longo caminho entre as Saturnais até o bonachão Papai Noel. Durante a jornada, perdeu-se um traço essencial: o sacrifício de Saturno (leia-se Papai Noel), depois de toda sorte de excessos. "Graças ao auto-de-fé de Dijon, eis o herói reconstituído em todas as suas características, e não deixa de ser um dos grandes paradoxos desse curioso episódio que, pretendendo acabar com Papai Noel, os eclesiásticos de Dijon não tenham feito mais do que restaurar, em sua plenitude, após um eclipse de alguns milênios, uma figura ritual cuja perenidade, a pretexto de destruí-la, coube justamente a eles demonstrar". São as viradas da História...

O estudioso acha que Papai Noel está mais vivo do que nunca, pois ele preenche uma função profunda: a necessidade que os adultos têm de acreditar nas crianças. Daí os presentes, e a presença de Papai Noel. No fim das contas, quem acredita mais nele são os adultos.