quarta-feira, 9 de março de 2011

Oração da Mulher Sagrada



"Sagrada Força Feminina te saúdo e sinto tua presença se manifestando em meu Ser
Através de meus pensamentos, palavras e ações
Deixo que a Divina Presença da Mãe Cósmica me oriente com sua infinita sabedoria
Ela está chegando, sinto sua Dança!
Ela está falando, ouço sua canção de Amor!
Ela está dentro e fora nas coisas mais simples e por isso perfeitas
E seu templo sagrado é meu corpo de Mulher
Seu pensamento agora é meu pensamento
E só penso em Amor,
Só sinto Amor
E só vejo Amor
O mundo que percebo é fruto da minha percepção de Amor
E assim crio a minha realidade
Abençôo meu dia e honro minha Deusa de mil nomes
E assim crio a magia que me ilumina e protege
Saúdo a noite e honro minha Mãe Lua, suas sagradas fases comandam meu corpo de mulher
E assim me preservo saudável e com meus ciclos femininos em perfeita harmonia.
Saúdo a Incognoscível, e assim honro e preservo meu poder oculto.
Saúdo as Forças da Natureza para que a Mãe Terra me proteja
E me oriente no Norte, no Sul, no Leste e no Oeste.
Honro a terra onde piso, a água que bebo e o meu alimento,
Pois sei que tudo que fizer a esta Terra voltará para mim e para meus descendentes.
E assim me conecto ao coração de Gaia e a sua proteção maternal.
A Deusa cuida do meu corpo e da minha alma
E assim estou em perfeita sincronia com o Universo
Do meu coração flui seus ensinamentos, suas palavras de sabedoria e sua força infinita
E assim realizo minha divindade humana
Em minha alma o Sagrado Feminino e o Sagrado Masculino se uniram em Amor e Êxtase
E assim descobri o equilíbrio onde o ser humano deve estar
Todo o Amor que nutre minha existência vem da Fonte Divina
Por isso não preciso que nenhum ser humano o faça por mim
A Deusa abençoa meu corpo com seus sagrados encantos
E assim a beleza da minha Alma se reflete em meu corpo feminino
Da minha mente fluem os pensamentos e a criatividade
que fazem minha existência ser especial e singular
E assim realizo minha vocação maior
Preservo meu coração limpo e leve como uma pena
E assim me permito ser livre e feliz para sempre
E que Assim Seja, porque Assim É"

Por Carla Lampert.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Inteira



- Dizem que sou meio louca. Sei lá mais o quê! Como se pode ser meio louca? Porque eu meio falo tudo que penso; meio me coloco (no meio?); eu meio me escondo; ou eu meio me mostro. Não sei... talvez eu seja toda louca. A loucura dos corajosos ou dos covardes ao extremo. Essa coisa que dá no meio do peito, ou no meio das pernas, que arrepia a pele, e faz com que eu me jogue.  Ninguém meio se joga. Depois da adrenalina, curto a sensação. E me jogo de novo. Sei lá o que me faz inteira! E sendo assim, eu nunca poderia ser meio louca, mas louca total.  Até dizer essas coisas, que não sei nem porque digo, me fazem ser também. Como se as palavras tentassem tocar em vão, o que vai além do que é lógico, do que é são. Vê como rima: vão e são? - E levantou do divã e pegou a bolsa e sacudiu os cabelos e bateu a porta e nunca mais voltou.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Quatro Quartetos

 
I

O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavres ecoam
Assim, no teu espirito.
                                Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
                         Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisiveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, reflectidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente.. contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.

II

Alhos e safiras na lama
Coagulam o eixo fixo.
O arame que vibra no sangue
Canta sob inventeradas cicatrizes
Apaziguando guerras há muito esquecidas.
A dança ao longo da artéria
A circulação da linfa
Estão representadas no rumo dos astros
Elevam-se ao verão na árvore
Nós movemo-nos acima da árvore em movimento
Na luz sobre a folha imaginada
E ouvimos no solo molhado
Lá em baixo, o cão de caça e o javali
Prosseguirem o seu ciclo como antes
Mas reconciliados no meio dos astros.



No ponto morto do mundo em rotação. Nem came nem
        espírito;
Nem de nem para; no ponto morto, aí está a dança,
Mas nem paragem nem movimento. E não se chame a isso
        fixidez,
Onde o passado e o futuro se reúnem. Nem movimento de
         nem para,
Nem ascensâo nem declínio. Se não fosse o ponto, o ponto
         morto,
Não haveria dança, e há só a dança.
Eu apenas posso dizer, estivemos ali: mas não posso dizer onde.
E não posso dizer por quanto tempo, pois seria situar isso no tempo.
A liberdade interior do desejo prático,
A libertação de acção e sofrimento, libertação da compulsão
Interior e exterior, e no entanto tendo à volta
Uma graça de sentido, uma luz branca em repouso e em movimento,
Erhebung sem movimento, concentração
Sem eliminação, ao mesmo tempo um novo mundo
E o velho tomado explícito, compreendida
No remate do seu êxtase parcial
A resolução do seu horror parcial.
Todavia o encadeamento de passado e futuro
Tecido na fraqueza do corpo em mutação
Protege a humanidade do céu e da danação
Que a carne não pode suportar.
                                     O tempo passado e o tempo futuro
Apenas concedem um pouco de consciência.
Estar consciente é não estar no tempo
Mas apenas no tempo podem o momento no roseiral,
O momento no caramanchel onde a chuva batia,
O momento na igreja desabrigada ao entardecer
Ser lembrados; envolvidos em passado e futuro.
Apenas pelo tempo o tempo é conquistado.

III

Este é um lugar de desafeição
O tempo antes e o tempo depois
Numa luz sombria: nem luz do dia
Investindo a forma de lúcida quietude
Transformando a sombra em efémera beleza
Com vagarosa rotação sugerindo permanência
Nem escuridão para purificar a alma
Esvaziando o sensual pela privação
Purificando a afeição do temporal.
Nem plenitude nem vazio. Apenas um tremeluzir
Sobre os rostos tensos devastados pelo tempo
Distraídos da distracção pela dístracção
Cheios de fantasias e vazios de sentido
Túmida apatia sem concentração
Homens e pedaços de papel remolnhando no vento frio
Que sopra antes e depois do tempo,
Vento que entra e sai de pulmões viciados
Tempo antes e tempo depois.
Eructação de almas doentias
No ar desbotado, os miasmas
Levados no vento que varre os sombrios montes de Londres,
Hampstead e Clerkenwell, Campden e Putney,
Hihgate, Primrose e Ludgate. Não aqui
Não aqui a escuridão, neste mundo de agitadas vozes.

Desce mais, desce apenas
Ao mundo da solidão perpétua,
Mundo não mundo, mas aquilo que não é mundo,
Escuridão interna, privação
E destituição de toda a propriedade,
Dissecação do mundo do sentido,
Evacuação do mundo da fantasia,
Inoperância do mundo do espírito;
Estee é um dos caminhos, e o outro
É o mesmo, não em movimento
Mas abstenção de movimento; enquanto o mundo se move
Em apetência, nos seus caminhos metalizados
Do tempo passado e do tempo futuro.

IV

O tempo e o sino enterraram o dia,
A nuvem negra arrebata o sol.
Irá voltar-se para nós o girassol, a clematite
Desprender-se, debruçar-se; irão a gavinha e a vergôntea
Unir-se e aderir?
Os frígidos
Dedos do teixo descerão
Para nos envolver? Depois da asa do alcião
Ter respondido à luz com a luz e calar-se, a luz está em repouso
No ponto morto do mundo em rotação.

V

As palavras movem-se, a música move-se
Apenas no tempo; mas o que apenas vive
Apenas pode morrer. As palavras, depois de ditas,
Alcançam o silêncio. Apenas pela forma, pelo molde,
Podem as palavras ou a música alcançar
O repouso, tal como uma jarra chinesa ainda
Se move perpetuamente no seu repouso.
Não o repouso do violino, enquanto a nota dura,
Não isso apenas, mas a coexistência,
Ou digamos que o fim precede o princípio,
E que o fim e o princípio estiveram sempre ali
Antes do princípio e depois do fim.
E tudo é sempre agora. As palavras deformam-se,
Estalam e quebram-se por vezes, sob o fardo,
Sob a tensão, escorregam, deslizam, perecem,
Definham com imprecisão, não se mantêm,
Não ficam em repouso. Vozes estridentes
Ralhando, troçando, ou apenas tagarelando,
Assaltam-nas sempre. O Verbo no deserto
É muito atacado por vozes de tentação,
A sombra que chora na dança funérea,
O clamoroso lamento da quimera desconsolada.

O detalhe do molde é movimento,
Como na figura dos dez degraus.
O próprio desejo é movimento
Não desejável em si;
O próprio amor é inamovível,
Apenas a causa e o fim do movimento,
Intemporal, e sem desejo
Excepto no aspecto do tempo
Capturado sob a fonna de limitação
Entre o não ser e o ser.
De repente num raio de sol
Mesmo enquanto se move a poeira
Eleva-se o riso escondido
De crianças na folhagem
Depressa, aqui, agora, sempre-
Ridículo o triste tempo inútil
Que se estende antes e depois.



T.S. Elliot
Quatro Quartetos

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Isobel


Isobel é uma louca mulher, desvairada de alegria, afogada pela tristeza. Isobel é viva, embora não exista. Isobel viveu antes da chegada dos padres na ilha. Corria por entre as brumas do campo, como se fosse uma cega, sem jamais cair ou tropeçar. Deitava-se na relva molhada e fria e deixava-se cobrir pelos pirilampos e mariposas, atraídos por sua luz. Isobel tinha mãe. Isobel não sabia quem era seu pai. Isobel sonhava com um guerreiro que não era da tribo. Olhava a linha reta do oceano, a fria e cinzenta linha final. Isobel escrevia cartas para ele. Embora ela nunca o tivesse visto, sabia da sua existência. Os anos foram passando e Isobel esperou, mesmo assim. Esperou que ele cruzasse aquela linha. Esperou e esperou tanto que acabou louca. Numa noite, Isobel saiu do corpo e seguiu para o mar, adentrou o oceano, gelado e profundo. Nunca mais foi vista. Sumiu. Deixou apenas algumas cartas e versos. Dizem que em noites em que o oceano fica liso, parado, silencioso, em que forma uma perfeita linha reta no horizonte, ouve-se uma voz melodiosa falando, como de dentro de uma concha. Dizem que é Isobel, louca, conversando com o amor.


sábado, 26 de fevereiro de 2011

Persuasão



O bar estava ainda vazio quando ela chegou. Empurrou a porta vai-e-vem, se dirigiu para o balcão. Meia luz, meio de lado no banco alto, pediu uma bebida. Vinho branco. Eu era barman nesse pub há mais de 10 anos. Nunca tinha visto algo assim: Ele chegou alguns minutos depois. Trazia um pacote na mão. Os olhos marejados, tocou o ombro dela e sorriu, sem jeito, quando ela se voltou.
- Trouxe o que você me pediu. – deixou o envelope pardo sobre o balcão. 

Vi quando ela não olhou nos olhos dele, fitou a taça minutos infinitos até pra mim. Ela não respondeu. 

Ele disse um adeus mudo, imperceptível. Moveu-se lentamente, olhando-a,  a mão tentou tocar seu cabelo, mas parou. Virou o rosto e passou pela porta, num movimento resoluto.
Fixei meus olhos naquela moça, sentada no balcão, parecendo um aparição solitária, pálida, lívida. Ela estendeu a mão branca e trêmula para o pacote pardo, numa lentidão suprema para mim, observador agora totalmente absorto e excitado. Minha imaginação fervilhou ao pensar nas possibilidades dentro daquele envelope pardo, embora o formato denunciasse o conteúdo: era um livro, só podia ser.
E era mesmo.

Ela o retirou do envelope, um livro pequeno e surrado. Agora abria na primeira página, era dela, pela familiaridade de sua expressão. Rosto calmo, resignado de quem só olha para algo que já conhece bem. De repente algo mudou naquela face delicada e bonita, uma expressão de surpresa. Eu não podia mais me conter de curiosidade e já ia, a pretexto de oferecer outra taça de vinho, me aproximar totalmente da moça. Mas ela desatara agora chorar, uma dor que explodiu em soluços tão fortes que ela largou o livro sobre o balcão e saiu tropeçando na porta vai-e-vem. De dentro do bar ainda pude ouvir seus gritos chamando por ele. Totalmente envolvido pela cena, não pensei duas vezes, corri para fora e vi que ela alcançara o rapaz, afinal. Um abraço, um beijo longo, cheio de lágrimas e palavras atropeladas.

Voltei ao bar correndo, na intenção de devolver ao casal o bendito livro. Mas, quando o tive nas mãos, não pude resistir, li o título Persuasão, de Jane Austen, e abri na página fatídica:

"Você me dilacera a alma. Sou metade esperança, metade desespero. Diga-me que não é tarde demais, que tais sentimentos preciosos não desapareceram completamente. Ofereço-me a você mais uma vez com um coração que lhe pertence ainda mais do que  há oito anos e meio, quando você quase o despedaçou. Não diga que o homem esquece mais depressa que a mulher, que o amor dele morre mais cedo. Eu não amei ninguém se não a si. Posso ter sido injusto. Posso ter sido fraco e rancoroso. Mas nunca inconstante. Vim a Bath unicamente por sua causa. Os meus pensamentos e planos são todos para si. Não reparou nisso? Não se apercebeu dos meus desejos? Se eu tivesse conseguido ler os seus sentimentos, como creio que deve ter decifrado os meus, não teria esperado estes dez dias. Mal consigo escrever. A todo o momento ouço algo que me emociona. Anne baixa a voz, mas eu consigo ouvir os tons dessa voz, mesmo quando os outros não conseguem. Criatura muito boa, muito pura! Faz-nos, de fato, justiça, ao acreditar que os homens são capazes de um verdadeiro afeto e uma verdadeira constância. Creia que esta é fervorosa e firme em F. W. Tenho de ir, inseguro quanto ao meu futuro; mas voltarei, ou seguirei o seu grupo, logo que possível. Uma palavra, um olhar será o suficiente para decidir se irei à casa do seu pai esta noite, ou nunca."

Era a carta de Frederick Wentworth para Anne Elliot. E entendi que nem todo tempo do mundo, nem toda espera, é capaz de destruir um amor verdadeiro.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Tudo certinho, bem



Eu faço tudo errado. Tudo errado mesmo. Eu não causo a boa primeira impressão, aquela que fica. E se ainda assim o sujeito se interessar, trato logo de dizer meus defeitos, tudo sem maquiagem, sem máscaras, sem jogo. Faço tudo errado. Depois, ainda achando que foi pouco, falo dos casos passados, dos amores, das decepções. Eu falo os nomes, as brigas, os motivos das separações. Eu encho o ouvido do cara de lamentações. Eu dou bandeira. E acabo implorando, disfarçadamente, que ele diga que me ama. Tudo, mas tudo mesmo, errado. E, pra finalizar, eu imponho uma tomada de decisão: sim ou não, sem meios termos. O mais errado do errado. E, se depois de tudo isso - desse manual ao contrário - ele ainda me amar e ficar comigo, aí sim, eu faço tudo certinho. Tudo certinho, bem.

Isobel Benandanti

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Isso



Essa coisa que fere e beija. Não sei se quero isso. Essa coisa que dói e não se pode viver sem. Não sei se quero. Essa coisa cheia de garras e asas. Que preenche e deixa. Nunca fica, parte e pousa noutra parte. Não sei se quero isso. De que sem me sinto triste e tendo não me pertence. Isso que parece existir só pros outros. Não sei mesmo se quero. Isso. Essa coisa que ninguém tem coragem de me dar, por medo de me ferir. Sim, talvez eu não queira mesmo isso. Devo, ainda, agradecer meus protetores por não me darem, por me pouparem. Isso também não sei se quero. Isso é morno e queima e marca e sangra e dói. Isso que me sobra. Não mesmo, não quero. Há de haver um dia algo melhor que isso. Alguém que me dê sem que eu peça. Há de haver. E se não houver, talvez eu queira mesmo nada, que é melhor que algo pela metade. E conviverei com isso, como quem aprecia uma paisagem pela janela: com o tempo, olhando sem nada sentir e nada querer.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Tocando estrelas



Em noites como essa, de lua cheia, a velha questão sepultada, de repente desperta. Ergue-se deslumbrante, de sob o manto frio e escuro da terra. À sete palmos, tão poucos para contê-la. Que questão? Não sei dizer. Dela só sinto, é irracional, uma coisa viva, rastejante... Um incômodo constante, um algo qualquer fundamental que não se define nunca. Como um holograma, vejo apenas partes.
Um não sei o que, que vem de não sei onde, entra pela janela, junto com a luz translúcida do astro misterioso. Enche meu coração de um pesar e de um poder que não tem medida, de tão grande e profundo. Vejo-me antes, não sei onde, por conta de algo indefinido e importante, a lutar. Lá onde não sei dizer, encontro-me com outros, com o mesmo ideal magnífico e nos pomos a trabalhar, com afinco, na resolução dessas coisas que me fogem, me fogem à memória - e mais! - fogem-me ao racional e às capacidades limitantes desta linguagem tão pobre.
Mas, sei que dessa sensação fica a certeza de algo lindo, importante. De fazermos há muito. De que o trabalho não terminou ainda. Que sinto saudades de quase tocar, como quem estira a mão até as estrelas numa madrugada à beira-mar. Teto baixo, salpicado de luzes, como se lá tivesse ficado um lar.


Disse-o bem Hilda Hilst: "Me queimo em sonhos, tocando estrelas".