domingo, 24 de abril de 2011

Cena de um poema real

Ela sonhava muitas coisas em dias assim chuvosos e felizes. Lia Rilke:

“Quem se verte como fonte, conhece-o o conhecimento,
que o segue, fascinado, pela serena criação,
na qual o começo é o fim e o fim o começo, amiúde”.

Gostava da sensação de ser embalada ao ler – a chuva batendo de leve na janela e as palavras deslizando pela mente. Ele ali, deitado na cama, o som do seu sono preenchendo de vida a manhã silenciosa do domingo. A cama quente, a luz tépida passando com graça pelo entrelaçado linho da cortina.

Ela parava – pausa calculada – para contemplar os cabelos grisalhos dele, espalhados no travesseiro. Neruda segredou, do livro aberto sobre a cama:

“Nos bosques, perdidos, cortei um ramo escuro
e os lábios, sedentos, levantaram seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
uma companhia vermelha ou um coração cortado”.

E ela ficou pensando quem havia cortado tão belo coração e chorou por ele, baixinho, para não acordá-lo.  E o vento elevou o linho, acariciou os cabelos dele e virou as páginas de Neruda:

“Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,
E tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso vê-lo todo:
veio em tua vida todo o vivente.”

E os culpados por ela abandonar, por fim, os livros, a razão – servindo eles  doravante de lastro ao amor – não foram os deuses, mas a chuva, o vento, o som da vida que ele emanava docemente. 


Nada foi preciso dizer, eu te amo já é tudo.

sábado, 16 de abril de 2011

The ladies from Outside


Da esquerda para a direita: Verena, eu, Isabel, Vivian.
Ritual de Beltane 2008 (saudades)

Onda e pedra


Noite. Mar escuro e profundo.
Onde Ode Onda Prata.
Estrela estrale na pedra negra
Seu corpo de água
Fluida corrente, força compacta,
Espuma macia...

Onde quebra a pedra.
Onde a onda bate.

Corpo sem forma,
deformAção.
Não há pedra que não quebra.

Sob a minaAção,
minando, obtém
forma onde forma onda.
Beija a pedra que se quebra
Ante o poder do não poder.

Correm nos meus dedos longos,
em versos tristes que invento...

terça-feira, 12 de abril de 2011

Minha estranha capacidade de me apaixonar



Caros leitores, vocês estão acostumados às minhas crônicas e poesias por aqui, mas hoje vou falar um pouco das paixões.
Estou apaixonada. Certo, logo vocês pensarão que me refiro a um caso amoroso, não é isso?
Sim e não.
O fato é que descobri há algum tempo uma capacidade muito esquisita que tenho: apaixono-me pelas pessoas muito facilmente. Até aí tudo bem, mas e se eu disser que me apaixono por várias ao mesmo tempo? E seu eu disser que essas pessoas (homens, mais claramente), me fascinam por motivos os mais variados?
Um modo de falar, o humor, a inteligência. A beleza, claro, mas nem sempre. Um jeito delicado ou tímido de se aproximar. Uma vez me vi apaixonada por causa da energia, muito forte, que um rapaz passou ao tocar meu braço. Paixões que vão e vem na mesma disparada rapidez. Agora, leio o texto de um aluno e estou apaixonada.
Acho que é um dom, na bruxaria chamam de empatia, talvez seja isso. Empatia é mais que simpatia. Sinto como uma atmosfera, a atmosfera do rapaz, sua vida, seu modo de falar, seu humor refinado, todo um conjunto de sensações, como ondas, me atravessam. Outro, não aluno, mas professor, tem olhos doces, verdes. Fixam em mim com insistência tal que posso sentir seus pensamentos. Deixa na pele uma sensação de corrente elétrica. Apaixonei-me também pela fragilidade de um homem. Sinto toda a carga de tristeza que há nele, na vida que teve até agora. Na dor profunda que carrega, mas não quer dividir comigo... fica na mente a sensação do mistério... Noutro, não há dissimulação nenhuma, declarou com firmeza suas intenções. Gosto da franqueza dele. Paixões...
Quem já se deixou tocar pela onda macia e quente da maré cheia, pode imaginar melhor essas sensações que me envolvem. Levantam um pouco do chão, carregam docemente ao universo alheio.  Eu me deixo levar por elas, fascinada. Sou fraca para paixões.

sábado, 9 de abril de 2011

Lavanda



Um campo violeta
Esmaecido violeta violento das passagens
Plantação de lavanda
Colorindo seus olhos claros.

“Por favor, olhe para mim” - doía.

Plácido campo movendo-se suavemente
O que comanda a maré das coisas?

“Não quero olhar, porque quero demais” - dói ainda mais.

Seu perfume, lavanda, quem te deu esse direito?
Plácidas dançarinas, indiferentes.
Lembram-me teu jeito, tua suavidade.

“Olhe pra mim” - a iminência da mudança.
O que devo esperar?

Fico lembrando teu beijo
Deixo ficar assim...
Suave como esses campos de lavanda.

domingo, 27 de março de 2011

A grande aventura


Já havia decidido: essa coisa de amor não serve mais. Só leva a infelicidade e decepções. Ela sempre estivera com o coração na mão, oferecendo-o, como se fosse um artigo barato. O amor é uma  dessas coisas que nos prendem a um círculo vicioso de paixões – especialmente de paixões por homens! – que ela deixaria para trás. Era o ponto final.
Organizou tudo. Vendeu a casa e o carro. Comprou uma mochila. Sairia pelo mundo, para encontrar a grande aventura espiritual, libertadora e que daria sentido à sua vida. Na bagagem tão simples levaria apenas o fundamental. Que fosse prático e leve o suficiente, leve como deveria estar seu peito. Estava tudo muito bem traçado, mapas e direções.
Seguindo o roteiro cuidadosamente planejado, ela jogou a mochila nas costas e tomou um taxi para o aeroporto. Finalmente daria o primeiro passo rumo à grande aventura, viveria as experiências transpessoais, evolutivas, espirituais, no caminho da evolução. Seria com certeza uma pessoa melhor!
Dirigiu-se ao balcão da companhia e, assim que se posicionou na fila, ouviu alguém chamando desesperadamente seu nome. Em meio a uma confusão, ela viu que ele corria por entre as pessoas e seus carrinhos de bagagens. Ele gritava seu nome com lágrimas nos olhos, achando que não daria mais tempo de dizer a ela tudo que não havia dito aqueles anos todos. Ao vê-lo, a moça compreendeu a essência das coisas, teve o maior e inesperado choque possível a alguém tão decidido: soube imediatamente que a grande aventura, cheia de experiências que fariam dela uma pessoa melhor, nunca estivera lá fora, em algum lugar, esperando por ela. Mas sim que sempre viria até ela, correndo e chamando seu nome, e estaria onde ela estivesse. E que o amor era a única coisa que não poderia faltar na sua bagagem, fosse ela uma mala ou uma simples mochila.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O feitiço entorpecente da palavra



Maleáveis, labirínticas e singelas as palavras desse feitiço. Profanas exclamações hipnotizantes.
Compor. Tecer. Reagrupar.
Em desarmonia perfeita, reverto a seqüência lógica. Forço a cristalização clara das palavras desse feitiço.
O mundo é forma.
Toco a essência íntima e fértil que pulsa.
Criar. Moldar. Encarnar.
Chego ao ponto que une as partes. Leitura diagramada irreal das palavras desse feitiço.
Cruzar. Mimetizar. Falar.
Declamo com os pássaros na Língua Antiga. Ziiiiibilosa partícula, meu centro.
Maleáveis, labirínticas e singelas palavras desse feitiço. Gotejando sons hipnotizantes.
Um glamour. Um disfarce. Uma máscara mágica.
O mundo é forma.
Eu centro e partícula. Fertilizando outras mentes de palavras/essências.
Deixo o som a reverberar...

sábado, 19 de março de 2011

A carga da Deusa

 
Também chamado de “O chamado da deusa”, “Os encargos da Deusa”, “O papel da Deusa” e “Exortação da Deusa”, foi escrito originalmente por Gerald Gardner em 1949, inspirado nos textos de Charles G. Leland em seu livro “Aradia”. Anos mais tarde, Doreen Valiente, iniciada por Gardner, reescreveu a versão que ficou mundialmente famosa.
Ouçam as palavras da Grande Mãe, que, em tempos idos, era chamada de Ártemis, Astartéia, Dione, Melusiana, Afrodite, Ceridwen, Diana, Arionrhod, Brígida e por muitos outros nomes:
Quando necessitar de alguma coisa, uma vez no mês, e é melhor que seja quando a lua estiver cheia, deverá reunir-se em algum local secreto e adorar o meu espírito que é a rainha de todos os sábios. Você estará livre da escravidão e, como um sinal de sua liberdade, apresentar-se-á nu em seus ritos. Cante, festeje, dance, faça música e amor, todos em minha presença, pois meu é o êxtase do espírito e minha também é a alegria sobre a terra. Pois minha lei é a do amor para todos os seres. Meu é o segredo que abre a porta da juventude e minha é a taça do vinho da vida, que é o caldeirão de Ceridwen, que é o gral sagrado da imortalidade. Eu concedo a sabedoria do espírito eterno e, além da morte, dou a paz e a liberdade e o reencontro com aqueles que se foram antes. Nem tampouco exijo algum tipo de sacrifício, pois saiba, eu sou a mãe de todas as coisa e meu amor é derramado sobre a terra.
Atente para as palavras da Deusa estelar, o pó de cujos pés abrigam-se o sol, a lua, as estrelas, os anjos, e cujo corpo envolve o universo:
Eu que sou a beleza da terra verde e da lua branca entre as estrelas e os mistérios da água, invoco seu espírito para que desperte e venha até a mim. Pois eu sou o espírito da natureza que dá vida ao universo. De mim todas as coisa vêm e pra mim todas devem retornar. Que a adoração a mim esteja no coração que rejubila, pois, saiba, todos os atos de amor e prazer são meus rituais. Que haja beleza e força, poder e compaixão, honra e humildade, júbilo e reverência, dentro de você. E você que busca conhecer-me, saiba que sua procura e ânsia serão em vão, a menos que você conheça os mistérios: pois se aquilo que busca não se encontrar dentro de você, nunca o achará fora de si. Saiba, pois, eu estou com você desde o início dos tempos, e eu sou aquela que é alcançada ao fim do desejo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Quando falas


Falas Luciana
E parece que uma delicada flor vem planando
no ar
E, de leve pousa no meu colo

Falas Luciana
E está delicadeza pousa nos meu lábios
fluida como um rio

Com suavidade
Falas Luciana
E sinto envolver-me uma lareira acolhedora,
mesmo que tudo pareça frio

E se ainda,
Falas Luciana
Com uma dor gostosa,
sinto a paz do caminho de onde vêem tantas delicadas flores.

sábado, 12 de março de 2011