domingo, 15 de maio de 2011

A chuva sempre passa

Não importa o quão seja forte e demorada, a chuva sempre passa...


sábado, 14 de maio de 2011

Meu Vício Agora

Linda música interpretada pelo Kid Abelha.
Aqui em Natal sábado chuvoso. Vamos ficar assim, desedificantes...



Não vou mais falar de amor
De dor, de coração, de ilusão
Não vou mais falar de sol
Do mar, da rua, da lua ou da solidão
Meu vício agora é a madrugada
Um anjo, um tigre e um gavião
Que desenho acordada
Contra o fundo azul da televisão
Meu vício agora...
É o passar do tempo
Meu vício agora...
Movimento, é o vento, é voar...é voar
Não vou mais verter
Lágrimas baratas sem nenhum porque
Não vou mais vender
Melôs manjadas de Karaokê
E mesmo assim fica interessante
Não ser o avesso do que eu era antes
De agora em diante ficarei assim...
Desedificante
Meu vício agora...
É o passar do tempo
Meu vício agora...
Movimento, é o vento, é voar... é voar

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Efêmera


A saia lápis formava em seu corpo magro uma delicada e perfeita moldura. Pernas cruzadas, numa elegância natural, que ela não herdara de nenhuma educação especial. O café fumegava na mesinha discreta enquanto ela lia e escrevia. Ele moço simples, sem atrativos estéticos, poucos atributos aparentes a ofertar, limitava-se a contemplá-la ao largo, como um passante que, estranhamente, dava vinte voltas toda tarde pela velha rua das livrarias. Fingia buscar nas vitrines algum exemplar raro, especial e, com isso, já se tornara amigo íntimo da maioria dos livreiros.

Mas hoje seria uma tarde diferente.

Parou na praça, de forma discreta, colado a um poste, esperando...
O garçom aproximou-se finalmente da mesinha, despertando a atenção da moça. Um envelope branco foi entregue, ele se afastou. Ela olhou ao redor, procurando a explicação daquilo, talvez adivinhando que o autor estaria por perto. Hesitou por alguns instantes, entre a curiosidade e algum receio indefinido...

A apreensão dele era crescente, quase alucinante.

Enfim ela abriu o lacre vermelho e retirou a pequena carta escrita a mão.

Foi inevitável. Desde o primeiro instante. Tentei fugir de contemplá-la todos os dias, de mergulhar na sensualidade da sua voz. Você me olha todos os dias, fala comigo, mas não sabe. Me apaixonei. O que posso fazer se tenho alma de artista e um artista não vive sem sua musa? Escolhi você.
Não tenho esperança, pois já vi você acompanhada.
Mas posso contemplá-la, me inspirar em você e criar:

Uma luz distante.
Efêmera.
Luz da ribalta sobre meu palco pessoal
Eu personagem desse drama
Instigante dama branca e delicada.

Você luz que me ofusca
Saber e querer
Uma completa busca.
Linda e delicada flor branca
Efêmera
Pairando acima dessa lama toda
Perfeita.

E houve como um silêncio, uma suspensão instantânea do tempo. Ela levantou os olhos brilhantes de lágrimas em busca dele, em busca do autor daquela carta. Quem seria ele? Alguém do seu convívio, certamente... Estaria por ali, em algum lugar? E ele achou que por um milionésimo de segundos seus olhos se encontraram, embora ela não tenha visto. Ela nunca via. Mas assim também estava bom. Quem sabe um dia as coisas podiam mudar...

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Apreciando a companhia dos lobos


Tenho passado dias ao lado dos lobos. Deixei um pouco a companhia dos gatos, bons conselheiros para assuntos individuais, mas que não me dão a segurança quente da matilha. Deitamos juntos, eu e os lobos, mantendo a temperatura com nossos próprios corpos. É sempre junto a eles que recobro a mulher selvagem que vive em mim. Lá, onde minha natureza mais profunda vem me resgatar, como uma mão que sai de dentro da floresta densa, e me puxa para seu âmago. Onde posso correr, meu corpo nu, meus cabelos ao vento. Onde posso gritar e rolar pela grama, de tristeza ou de alegria.
Nada de civilidade. Nada de ser educada “como te ensinamos”. Lá eu sou livre. Lá a loucura humana quase não me atinge. Lá há tempo para tudo.
É junto à matilha que tenho resgatado minha beleza, minha auto-estima, meu prazer de viver. Quando tudo fora da floresta densa me aponta um dedo de acusação por eu não ser boa o suficiente, bela como o “modelo”, capaz como a vida exige, eu me refugio.
Na natureza selvagem interior posso beber a água do córrego, sentir o sol manso na minha pele, perseguir as borboletas. Meus irmãos lobos me permitem saber o que é o amor, o carinho, o companheirismo e a segurança de “fazer parte”.
Depois que me recarrego disso, que quase não existe mais na vida humana, volto para ela com mais forças. Em geral acontece assim.
Dessa vez não sei se vou voltar...
Talvez eu volte se ou quando algo na vida humana seja mais verdadeiro que a companhia dos lobos. 

domingo, 24 de abril de 2011

Cena de um poema real

Ela sonhava muitas coisas em dias assim chuvosos e felizes. Lia Rilke:

“Quem se verte como fonte, conhece-o o conhecimento,
que o segue, fascinado, pela serena criação,
na qual o começo é o fim e o fim o começo, amiúde”.

Gostava da sensação de ser embalada ao ler – a chuva batendo de leve na janela e as palavras deslizando pela mente. Ele ali, deitado na cama, o som do seu sono preenchendo de vida a manhã silenciosa do domingo. A cama quente, a luz tépida passando com graça pelo entrelaçado linho da cortina.

Ela parava – pausa calculada – para contemplar os cabelos grisalhos dele, espalhados no travesseiro. Neruda segredou, do livro aberto sobre a cama:

“Nos bosques, perdidos, cortei um ramo escuro
e os lábios, sedentos, levantaram seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
uma companhia vermelha ou um coração cortado”.

E ela ficou pensando quem havia cortado tão belo coração e chorou por ele, baixinho, para não acordá-lo.  E o vento elevou o linho, acariciou os cabelos dele e virou as páginas de Neruda:

“Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,
E tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso vê-lo todo:
veio em tua vida todo o vivente.”

E os culpados por ela abandonar, por fim, os livros, a razão – servindo eles  doravante de lastro ao amor – não foram os deuses, mas a chuva, o vento, o som da vida que ele emanava docemente. 


Nada foi preciso dizer, eu te amo já é tudo.

sábado, 16 de abril de 2011

The ladies from Outside


Da esquerda para a direita: Verena, eu, Isabel, Vivian.
Ritual de Beltane 2008 (saudades)

Onda e pedra


Noite. Mar escuro e profundo.
Onde Ode Onda Prata.
Estrela estrale na pedra negra
Seu corpo de água
Fluida corrente, força compacta,
Espuma macia...

Onde quebra a pedra.
Onde a onda bate.

Corpo sem forma,
deformAção.
Não há pedra que não quebra.

Sob a minaAção,
minando, obtém
forma onde forma onda.
Beija a pedra que se quebra
Ante o poder do não poder.

Correm nos meus dedos longos,
em versos tristes que invento...

terça-feira, 12 de abril de 2011

Minha estranha capacidade de me apaixonar



Caros leitores, vocês estão acostumados às minhas crônicas e poesias por aqui, mas hoje vou falar um pouco das paixões.
Estou apaixonada. Certo, logo vocês pensarão que me refiro a um caso amoroso, não é isso?
Sim e não.
O fato é que descobri há algum tempo uma capacidade muito esquisita que tenho: apaixono-me pelas pessoas muito facilmente. Até aí tudo bem, mas e se eu disser que me apaixono por várias ao mesmo tempo? E seu eu disser que essas pessoas (homens, mais claramente), me fascinam por motivos os mais variados?
Um modo de falar, o humor, a inteligência. A beleza, claro, mas nem sempre. Um jeito delicado ou tímido de se aproximar. Uma vez me vi apaixonada por causa da energia, muito forte, que um rapaz passou ao tocar meu braço. Paixões que vão e vem na mesma disparada rapidez. Agora, leio o texto de um aluno e estou apaixonada.
Acho que é um dom, na bruxaria chamam de empatia, talvez seja isso. Empatia é mais que simpatia. Sinto como uma atmosfera, a atmosfera do rapaz, sua vida, seu modo de falar, seu humor refinado, todo um conjunto de sensações, como ondas, me atravessam. Outro, não aluno, mas professor, tem olhos doces, verdes. Fixam em mim com insistência tal que posso sentir seus pensamentos. Deixa na pele uma sensação de corrente elétrica. Apaixonei-me também pela fragilidade de um homem. Sinto toda a carga de tristeza que há nele, na vida que teve até agora. Na dor profunda que carrega, mas não quer dividir comigo... fica na mente a sensação do mistério... Noutro, não há dissimulação nenhuma, declarou com firmeza suas intenções. Gosto da franqueza dele. Paixões...
Quem já se deixou tocar pela onda macia e quente da maré cheia, pode imaginar melhor essas sensações que me envolvem. Levantam um pouco do chão, carregam docemente ao universo alheio.  Eu me deixo levar por elas, fascinada. Sou fraca para paixões.

sábado, 9 de abril de 2011

Lavanda



Um campo violeta
Esmaecido violeta violento das passagens
Plantação de lavanda
Colorindo seus olhos claros.

“Por favor, olhe para mim” - doía.

Plácido campo movendo-se suavemente
O que comanda a maré das coisas?

“Não quero olhar, porque quero demais” - dói ainda mais.

Seu perfume, lavanda, quem te deu esse direito?
Plácidas dançarinas, indiferentes.
Lembram-me teu jeito, tua suavidade.

“Olhe pra mim” - a iminência da mudança.
O que devo esperar?

Fico lembrando teu beijo
Deixo ficar assim...
Suave como esses campos de lavanda.

domingo, 27 de março de 2011

A grande aventura


Já havia decidido: essa coisa de amor não serve mais. Só leva a infelicidade e decepções. Ela sempre estivera com o coração na mão, oferecendo-o, como se fosse um artigo barato. O amor é uma  dessas coisas que nos prendem a um círculo vicioso de paixões – especialmente de paixões por homens! – que ela deixaria para trás. Era o ponto final.
Organizou tudo. Vendeu a casa e o carro. Comprou uma mochila. Sairia pelo mundo, para encontrar a grande aventura espiritual, libertadora e que daria sentido à sua vida. Na bagagem tão simples levaria apenas o fundamental. Que fosse prático e leve o suficiente, leve como deveria estar seu peito. Estava tudo muito bem traçado, mapas e direções.
Seguindo o roteiro cuidadosamente planejado, ela jogou a mochila nas costas e tomou um taxi para o aeroporto. Finalmente daria o primeiro passo rumo à grande aventura, viveria as experiências transpessoais, evolutivas, espirituais, no caminho da evolução. Seria com certeza uma pessoa melhor!
Dirigiu-se ao balcão da companhia e, assim que se posicionou na fila, ouviu alguém chamando desesperadamente seu nome. Em meio a uma confusão, ela viu que ele corria por entre as pessoas e seus carrinhos de bagagens. Ele gritava seu nome com lágrimas nos olhos, achando que não daria mais tempo de dizer a ela tudo que não havia dito aqueles anos todos. Ao vê-lo, a moça compreendeu a essência das coisas, teve o maior e inesperado choque possível a alguém tão decidido: soube imediatamente que a grande aventura, cheia de experiências que fariam dela uma pessoa melhor, nunca estivera lá fora, em algum lugar, esperando por ela. Mas sim que sempre viria até ela, correndo e chamando seu nome, e estaria onde ela estivesse. E que o amor era a única coisa que não poderia faltar na sua bagagem, fosse ela uma mala ou uma simples mochila.