terça-feira, 13 de setembro de 2011

O Tempo



Por anos me perseguiu aquela impressão medonha.
Algo indefinido, causando inconformação constante e sutil.
Deformando a visão das coisas, das pessoas, do mundo...
Persistiu incansável essa espécie estranha de desejo, que mesmo intenso, não parecia mesmo meu.
Era como uma imposição externa oprimindo internamente meu peito.
Esse inexistente ou irrealizável objeto de opressão não era meu, fora me dado.
Não sei por quem, por quantos, em que momento, mas não era meu.

***

Hoje, se o ar está mais leve é porque sopraram as areias do deserto, as brisas leves e suaves do Tempo.
Como um balão que murcha ante um esvaziamento inevitável, pouco a pouco, o sentimento foi-se.
Não o decifrei.
Mas, o Tempo, esse senhor curvado, em passos miúdos e vacilantes, varreu com a luz da sua lanterna antiga toda a sombra que sobre mim se abatia.
Não sei o que era, mas não mais existe.
Devo a ele, o Tempo, talvez alguma sabedoria aprendida no escuro. Sem leitura, que tanto prezo, sem guru, sem carinho, sem cuidados. Só a dura areia da ampulheta, descendo lentamente sobre minha cabeça.
Cada pequeno grão ressoando alto e doloroso.

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Fragmento do livro que estou escrevendo.

domingo, 11 de setembro de 2011

A Árvore



Adoro como o sol da tarde recai sobre cada mínima folha da Árvore, por mais tenra e delicada que seja...
E de como todas elas, reluzindo, formam um lindo mar, ondulante, dourado.
A beleza está nas pequenas coisas, não no incomum ou numa perfeição humana.
O que sabe o humano?
É a aleatoriedade das coisas, a imprevisibilidade dos pequenos atos, em geral despercebidos, que juntos formam Deus.
Por que buscar essa beleza numa idealização humana?
Humanidade egocêntrica que cria véus sobre o que podia ser visível.
Se Deus fosse o modelo divino do humano, não se (re)voltaria ele completamente num  giro infinito ao redor do seu próprio umbigo?

***

Já me perguntaram sobre a felicidade.
Olho agora para as folhas dessa velha Árvore e me pergunto se a folha sozinha é feliz. 
Ou devo perguntar à Árvore?

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Fragmento do livro que estou escrevendo...

sábado, 3 de setembro de 2011

Feia como o povo das fadas



Vejo-me pequenina, tímida e feia.
Feia era meu destino original – portanto um serzinho solitário no mundo da Beleza.
Mas, um golpe da vida aprimorou minha aparência física e talvez espiritual.
E até hoje resta a pergunta: permanece inalterado o destino original?
Ou, por mais que o mundo material possa ser manipulado em favor da beleza física, e talvez espiritual, eu permaneço originalmente feia?
Feia e homem.
Eu sou a feia inteligente, portanto mais um dos amigos dos homens.
“Eu não quero isso, seja lá o que isso for”.
Eu quero a chave-mestra que abre a Porta, que mexe as roldanas, que trava e desfaz as voltas da Grande Roda.
Porque, afinal, sou feia mesmo, feia como o povo das fadas. Neste mundo onde tudo está de ponta a cabeça, a beleza é a feiúra e a feiúra a beleza.
“E a minha alma clara só quem é clarividente pode ver”.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Diz-me, porque não nasci igual aos outros, 
sem dúvidas, sem desejos de impossível? 
E é isso que me traz sempre desvairada, 
incompatível com a vida que toda a gente vive. 
Florbela Espanca




O amor é sofrimento!
Ela me disse assim de supetão e, quando questionei, num átimo seus olhos azuis como o aço me fuzilaram: claro que é!
Fiquei intrigada o dia todo. Tanto porque eu, mulher balzaquiana, já tinha me dado conta disso - embora tentasse negar - em muitos níveis. O que me chocou foi a certeza, refinada, da aluna, uma garota nos primeiros meneios por esse estranho caminho tortuoso e espinhoso do amor.
As pessoas são bem precoces hoje em dia...
Ou eu sou ingênua, lenta?

Estava assim, nesse ritmo analógico, a fazer conjecturas delirantes sobre o assunto, quando ela tocou meu ombro e disse: não pense tanto, professora.

Eu sou  professora, doutora? Só faço isso, só sei fazer isso: pensar!

Será o raciocínio inimigo do amor, de fato? E aos que preferiram estudar, nega-se o amar?

E já mergulhava eu novamente no universo infindável dos meus devaneios - que, de tão complexos, não me levavam a lugar nenhum - quando percebi que ela sorria.
Segundos se passaram e aqueles olhos cinzas e frios me fitaram...

- Uma vez me disseram, profa, que eu não considerasse prioridade quem me tratava como segunda opção.
E eu pensei: fora isso, o resto é amor? Deveria ter um doutorado nessa área, talvez eu me desse bem aí...

Saldo: coisas insólitas me acontecem, recados que saem da boca de pessoas inesperadamente... mundo estranho esse...


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Como quando a chuva passa...


Sentia uma espécie de deleite após o choro.
Por que, nesse mundo todos dizem "não chore"?
Chorar é bom, as lágrimas são rios interiores que as vezes transbordam.
Como os rios têm duas margens, nem todo choro é de tristeza.

E ela chorava muito.
De emoção, de alegria, de compaixão, de tristeza.
Chorava rindo.
Chorava no cinema.
Chorava na volta.
Chorava indo...

Chora ainda
de saudades.
As vezes chora de vaidade, de teimosia, de capricho.
Mas o choro é grátis, deixem que chore
em paz.
Porque não se chora apenas no conflito, na injustiça ou no desamor.

Que pobreza interior
chorar só por tristeza ou por dor de amor!

E continuava ela, apreciando o deleite aliviante que vem do choro.
Como quando a chuva passa,
E tudo parece mais claro, vibrante, verde, fresco.
Renovado.

Como quando depois da tempestade se encontra,
batendo contra a miragem,
trazida pelo mar,
uma mensagem numa garrafa.

sábado, 13 de agosto de 2011

A poesia está morta e juro que fui eu.



As emoções são cavalos selvagens.
São lobos, soltos, correndo na estepe.
As emoções são ardilosas e espertas raposas.
Velhas...
Quando se pensa que caíram nas armadilhas,
Que se as mantém sob controle,
Eis que surgem quando menos se espera.
Velhas...
Irrompem como forças da natureza.
Sem haver nada que as estanque, que as detenha.
Seguem abrindo trincheiras,
Sem qualquer aviso de delicadeza.
Essas velhas...
Queria matar essas emoções,
Cometer velhecídio.
Furá-las, até que secassem, com o punhal/racional.
Eu seria a primeira assassina em série de emoções.
Começaria matando você leitor, agora mesmo.
Depois, a possibilidade de existência destas frases que escrevi.
Mataria, sem prazer algum, a poesia e os poetas.
Por fim, mataria o amor e o amado.
E, nada mais sobrando de sentido,
Tudo assim desfigurado,
Matar-me-ia infinitamente...

E se a poesia está morta, juro que fui eu.

domingo, 31 de julho de 2011

Antipoesia de uma poeta



Nasci com uma  predestinação: sou  poeta. Não, ninguém assim me definiu, não é uma definição oficial, entendo como uma condição. Se é ou não poeta.
Por causa desse estigma, as coisas nunca são simples. Surgem em função dos temas. A poesia se sobrepõe à vida? Se sobrepõe ao amor, decerto, pois assim tem sido.  Jane Austen deve ter se questionado também:  


Elizabeth: Eu me pergunto quem descobriu o poder da poesia para espantar o amor.
Darcy: Achei que fosse o alimento do amor. 
Elizabeth: Do amor belo e vigoroso. Mas se é apenas uma vaga inclinação, um pobre soneto o liquidará.

Os pés dos temas, nem sempre suaves, tem pisado meu corpo, minha mente, meu coração. Até que qualquer amor seja liquidado.


Ai de qualquer um como eu que seja poeta. 
Mas, como poeta sem amor é poeta morto, o último sopro ao vivo, alí no guardanapo:

Olha dentro do meu espelho
Quanto mais olhas mais reflexo
Teu
Espelho/coração
Vou te falar da segunda chance...
Da antipoesia minha.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Linda e triste historia de amor. "A dama inglesa e o cavaleiro", canção de Loreena McKennit baseada no poema de Sir Walter Scott chamado "It was an English Ladye Bright" (havia uma radiante dama inglesa) datado do ano de 1805. 

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Maior que qualquer fé ou ideal



Lembro-me desse tempo antigo. Que no alto e afastado monte sagrado, começavam a soprar os ventos gelados do inverno. Uma enorme fogueira ardia no centro de belas e mágicas pedras. Recordo com perfeição o frio açoite das rajadas penetrando minhas vestes, apesar de sua espessura. Lembro de o vento arrebatar meus cabelos vermelhos, arrancando com ímpeto o manto sobre minha cabeça.
Eu estava lá pelo Propósito, que só conheciam os iniciados. Para ouvir a Voz.
Ainda sinto a batida surda dos cascos do cavalo, as ferragens tilintarem e refulgirem ao brilho quente da fogueira. E por dentro do manto escuro, seus olhos de guerreiro. Meu inimigo. Meu amor.
Seus ideais contrários aos meus. Sua fé maior que a minha. E lembro da dor que você me infringiu.
Do gelado metal, do quente sangue correndo pela minha barriga. E ainda assim, em meio a tudo, eu te amando.
E minha Mãe, tão majestosa voz, dizer-me: isso vai se repetir, até o dia em que o amor for maior que qualquer fé ou ideal. Que o amor for maior que o medo.