domingo, 18 de setembro de 2011

O segredo das nuvens



E não é que quando passam as nuvens,
Velozes,
Todo o resto parece cair?
Parece que passam,
Movendo-se de lá para não se sabe bem onde...
E quando elas, majestosas nuvens, tomando o céu
O resto afagam o rosto,
De leve,
Levam consigo teu nome.

Arrastam, ajudadas pelo vento,
A chuva
Que um dia me encharcou.
Que se misturou às lágrimas,
Que doeu na alma.
Será que levam tudo, poderosas nuvens?
Achas que te levam para longe,
E que meu rosto apagam,
Em sucessivas camadas
De seus véus?

Mas não há, amor,
Nuvem, nem lago,
nem poço, nem trégua.
Não há nada para além deste tempo
Em que gritam os sinos de vento.
Em que enfunam as velas dos barcos,
Que rasgam qualquer folha e afundam qualquer razão.
Não há, coisa alguma, meu amor, que não seja o alto
Lá onde habitam as nuvens.
Não teu cais, nem teu poço.
Diria portanto o Neruda do mar, lembrando-se de ti:

“Não temas, não caias
De novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
E deixe que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
Sem que tu a dirijas,
Porque foi carregada com um instante duro
E esse instante será desarmado em meu peito.”

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Vento


Diz-me, vento que sopra forte, penetrando pelas frestas da janela, gritando tão alto.
Diz-me mais baixo, de leve, sem gemido agudo de sofrer.
O que há de vir mais a frente?

Diz-me Vento amigo, porque sopras tão forte por esses dias?
Acaso brigaste com teu amor?
Embora não seja tristeza somente, vê-se em ti uma fúria!
O que tens contra Primavera, tão bela e florida?

Diz-me, que eu seja como uma tua confidente, agora.
Te acalma e diz.
De que vale esse desalento selvagem, se despedaças a delicada flor?
Vê como é com suavidade que tua irmã, Brisa, a todos toca e convida?

Vento que vem de longe, trazendo tantas histórias, conta-me pelo menos uma.
Dos mares turbulentos e gelados do Sul, salpicado de espuma fértil.
Das moças que morrem e viram sereias, das baleias, dos velhos navios que derrubastes...

Vento, será que então, ao invés de nada me contares, podes levar um recado meu?
Já que estás furioso e tão veloz, leva por aí, não sei bem pra onde, um pedido meu.
Divide com todos os teus, a Brisa, a Primavera, o Raio e o Trovão,
Depositas no bico das aves, nas gotas da chuva, nas pétalas das flores, nos grãos de areia,
Uma suplica tão antiga, um pedido que já me parece tão vão...

Diz ao meu amor, Vento, que o Tempo passa correndo e com ele não posso contar.
Ele não escuta, ri-se toda vez que o procuro...
Diz ao meu amor que o aguardo tanto, que estou cansada de esperar.
Aconselha-o ao pé do ouvido, que seja breve em voltar.
Que deixei na janela um velho lencinho, bordado com seu nome - que não sei.
Que faço votos de logo a ele entregar.

Sopras pelas estradas, pelas cidades, pelos rios e pelos mares.
Vento, conto contigo.
Porque o Tempo é remanchoso, porque a Lua é fria e porque a Vida é tão breve...

***

Vento, diga por favor, aonde se escondeu o meu amor...

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A Madrugada



Esta triste escrevinhadora perdeu sua avó, vítima de asma.
Amante da vida, a velha e sorridente senhora, dizia que a Madrugada era a mãe do Sol.
A Madrugada, a rainha dos sonhos, do mundo das fadas.
Que eu, menina estranha, viajava para lá em sonhos, pelas portas das estrelas.

Guardei a luz do seu sorriso na face prateada da Lua, irmã do Sol.
Minha avó entendia da noite e do céu estrelado que só tem por testemunha aquele que sobrevive ao convite mortal do sono.
Resista e verás.
Minha avó não se chamava Dalva, à toa. Nome da mais brilhante estrela.

Numa dessas noites estreladas, deixava-me levar em seus braços macios, embalada ao som dos grilos e pelo perfume da laranjeira em flor.
O açúcar dos jasmins, a brisa cálida do sertão e o som distante de alguma viola, formaram o teatro das minhas fantasias juvenis.
Sorte ter uma avó assim, sem artes de cozinha, mas repleta de artes oníricas.

E fui, no barco da noite, guiada pela Estrela Dalva, em busca das terras para além da Terra. Onde não haveria de haver tanto sofrimento, onde, para minha velha alma num jovem corpo, paz e harmonia eram alimento e alento.

E minha avó puxava os fios da imaginação desta sonhadora. Tornando repletas as folhas da minha Árvore, as páginas do meu Livro, de imagens de amor. Um príncipe, belo e doce. Um lar, feliz e próspero. Um trabalho, feliz e tranqüilo.

Minha avó morreu, buscando o ar. Talvez sufocada por não poder viver. Tenho medo da Madrugada desde então.

A Madrugada, entre um dia e uma noite, pode levar-nos...

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Fragmento do livro que estou escrevendo.

O Tempo



Por anos me perseguiu aquela impressão medonha.
Algo indefinido, causando inconformação constante e sutil.
Deformando a visão das coisas, das pessoas, do mundo...
Persistiu incansável essa espécie estranha de desejo, que mesmo intenso, não parecia mesmo meu.
Era como uma imposição externa oprimindo internamente meu peito.
Esse inexistente ou irrealizável objeto de opressão não era meu, fora me dado.
Não sei por quem, por quantos, em que momento, mas não era meu.

***

Hoje, se o ar está mais leve é porque sopraram as areias do deserto, as brisas leves e suaves do Tempo.
Como um balão que murcha ante um esvaziamento inevitável, pouco a pouco, o sentimento foi-se.
Não o decifrei.
Mas, o Tempo, esse senhor curvado, em passos miúdos e vacilantes, varreu com a luz da sua lanterna antiga toda a sombra que sobre mim se abatia.
Não sei o que era, mas não mais existe.
Devo a ele, o Tempo, talvez alguma sabedoria aprendida no escuro. Sem leitura, que tanto prezo, sem guru, sem carinho, sem cuidados. Só a dura areia da ampulheta, descendo lentamente sobre minha cabeça.
Cada pequeno grão ressoando alto e doloroso.

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Fragmento do livro que estou escrevendo.

domingo, 11 de setembro de 2011

A Árvore



Adoro como o sol da tarde recai sobre cada mínima folha da Árvore, por mais tenra e delicada que seja...
E de como todas elas, reluzindo, formam um lindo mar, ondulante, dourado.
A beleza está nas pequenas coisas, não no incomum ou numa perfeição humana.
O que sabe o humano?
É a aleatoriedade das coisas, a imprevisibilidade dos pequenos atos, em geral despercebidos, que juntos formam Deus.
Por que buscar essa beleza numa idealização humana?
Humanidade egocêntrica que cria véus sobre o que podia ser visível.
Se Deus fosse o modelo divino do humano, não se (re)voltaria ele completamente num  giro infinito ao redor do seu próprio umbigo?

***

Já me perguntaram sobre a felicidade.
Olho agora para as folhas dessa velha Árvore e me pergunto se a folha sozinha é feliz. 
Ou devo perguntar à Árvore?

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Fragmento do livro que estou escrevendo...

sábado, 3 de setembro de 2011

Feia como o povo das fadas



Vejo-me pequenina, tímida e feia.
Feia era meu destino original – portanto um serzinho solitário no mundo da Beleza.
Mas, um golpe da vida aprimorou minha aparência física e talvez espiritual.
E até hoje resta a pergunta: permanece inalterado o destino original?
Ou, por mais que o mundo material possa ser manipulado em favor da beleza física, e talvez espiritual, eu permaneço originalmente feia?
Feia e homem.
Eu sou a feia inteligente, portanto mais um dos amigos dos homens.
“Eu não quero isso, seja lá o que isso for”.
Eu quero a chave-mestra que abre a Porta, que mexe as roldanas, que trava e desfaz as voltas da Grande Roda.
Porque, afinal, sou feia mesmo, feia como o povo das fadas. Neste mundo onde tudo está de ponta a cabeça, a beleza é a feiúra e a feiúra a beleza.
“E a minha alma clara só quem é clarividente pode ver”.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Diz-me, porque não nasci igual aos outros, 
sem dúvidas, sem desejos de impossível? 
E é isso que me traz sempre desvairada, 
incompatível com a vida que toda a gente vive. 
Florbela Espanca




O amor é sofrimento!
Ela me disse assim de supetão e, quando questionei, num átimo seus olhos azuis como o aço me fuzilaram: claro que é!
Fiquei intrigada o dia todo. Tanto porque eu, mulher balzaquiana, já tinha me dado conta disso - embora tentasse negar - em muitos níveis. O que me chocou foi a certeza, refinada, da aluna, uma garota nos primeiros meneios por esse estranho caminho tortuoso e espinhoso do amor.
As pessoas são bem precoces hoje em dia...
Ou eu sou ingênua, lenta?

Estava assim, nesse ritmo analógico, a fazer conjecturas delirantes sobre o assunto, quando ela tocou meu ombro e disse: não pense tanto, professora.

Eu sou  professora, doutora? Só faço isso, só sei fazer isso: pensar!

Será o raciocínio inimigo do amor, de fato? E aos que preferiram estudar, nega-se o amar?

E já mergulhava eu novamente no universo infindável dos meus devaneios - que, de tão complexos, não me levavam a lugar nenhum - quando percebi que ela sorria.
Segundos se passaram e aqueles olhos cinzas e frios me fitaram...

- Uma vez me disseram, profa, que eu não considerasse prioridade quem me tratava como segunda opção.
E eu pensei: fora isso, o resto é amor? Deveria ter um doutorado nessa área, talvez eu me desse bem aí...

Saldo: coisas insólitas me acontecem, recados que saem da boca de pessoas inesperadamente... mundo estranho esse...


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Como quando a chuva passa...


Sentia uma espécie de deleite após o choro.
Por que, nesse mundo todos dizem "não chore"?
Chorar é bom, as lágrimas são rios interiores que as vezes transbordam.
Como os rios têm duas margens, nem todo choro é de tristeza.

E ela chorava muito.
De emoção, de alegria, de compaixão, de tristeza.
Chorava rindo.
Chorava no cinema.
Chorava na volta.
Chorava indo...

Chora ainda
de saudades.
As vezes chora de vaidade, de teimosia, de capricho.
Mas o choro é grátis, deixem que chore
em paz.
Porque não se chora apenas no conflito, na injustiça ou no desamor.

Que pobreza interior
chorar só por tristeza ou por dor de amor!

E continuava ela, apreciando o deleite aliviante que vem do choro.
Como quando a chuva passa,
E tudo parece mais claro, vibrante, verde, fresco.
Renovado.

Como quando depois da tempestade se encontra,
batendo contra a miragem,
trazida pelo mar,
uma mensagem numa garrafa.

sábado, 13 de agosto de 2011

A poesia está morta e juro que fui eu.



As emoções são cavalos selvagens.
São lobos, soltos, correndo na estepe.
As emoções são ardilosas e espertas raposas.
Velhas...
Quando se pensa que caíram nas armadilhas,
Que se as mantém sob controle,
Eis que surgem quando menos se espera.
Velhas...
Irrompem como forças da natureza.
Sem haver nada que as estanque, que as detenha.
Seguem abrindo trincheiras,
Sem qualquer aviso de delicadeza.
Essas velhas...
Queria matar essas emoções,
Cometer velhecídio.
Furá-las, até que secassem, com o punhal/racional.
Eu seria a primeira assassina em série de emoções.
Começaria matando você leitor, agora mesmo.
Depois, a possibilidade de existência destas frases que escrevi.
Mataria, sem prazer algum, a poesia e os poetas.
Por fim, mataria o amor e o amado.
E, nada mais sobrando de sentido,
Tudo assim desfigurado,
Matar-me-ia infinitamente...

E se a poesia está morta, juro que fui eu.