sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Quem sou


Quem sou eu
Agora que te conheci?
Agora que desenterras esse livro
Meio velho, queimado, rasgado.
Que sou eu...
Soterrada nas areias de um tempo.
Quem sou,
Quando o que me definia
Não é mais feito dessas páginas.
Porque você me leu.
Então me diz:
Quem sou eu?

Quem sou, quando te conhecendo,
Reconheci-me tão diferente
Nesse espelho?
Diz o que lá está escrito
E não posso ler
Ao contrário do brilho,
Ao contrário do que aparento não ser.
Diz-me onde está a rosa
Em meio aos espinhos.
Já que me conheces tão bem.
Espero saber
 Quem sou eu agora que te conheci.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Poeminha besta sobre uma carta que não existe



Fui escrever.
Excondida do mundo. Excondida de tudo.
Uma carta para você.
Para que esta carta?
Não vou mandá-la, não tenho seu endereço.
Não sei seu nome, ou se existe.

Fui escrever, lá num recanto sombrio.
Furtivo e frio do meu ser.
Uma carta, muito linda, borrada de lágrimas.
Para que escrever?
Não vou mandá-la nunca!
O carteiro vai rir: só tem remetente.
Mando para o céu, mando para Deus?
Mande para mim! – diz  o carteiro, que me sorri.
Tocou meu ombro e deixou uma marca.
E foi embora, levando a carta.
E quando você receber, perfumada de mim,
Vai saber.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Chuva que cai



Que chuva é essa que cai aqui
Que cai em mim, sem me avisar?
Que chuva fria molhando o sol,
Evaporando a vida,
Dos telhados quentes.

Que chuva é essa?
Que trás um frio úmido e passado,
Que traz de volta julho?
Chuva chata, sem graça, sem sentido!

Que chuva é essa que cai aqui
Que cai em mim sem me molhar?
Cai fininha e cheia de luz,
Misturada ao sol.

E lá na rua, o vento trás as vozes
das crianças que cantam:
“chuva com sol, casamento de espanhol”...

Paro e penso:
No dia do me casamento 
vai chover.
E molhar meu vestido rosa-chá

Vai chover e deixar
um perfume dos jasmins no ar.

No dia do meu casamento vai ter sol
e iluminar a flor da sua lapela
e banhar de luz aquela passagem
uma nova estrada bela.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Ainda bem


Ainda bem
Que agora encontrei você
Eu realmente não sei
O que fiz pra merecer
Você
Porque ninguém
Dava nada por mim
Quem dava, eu não tava a fim
Até desacreditei
De mim

O meu coração
Já estava acostumado
Com a solidão

Quem diria que a meu lado
Você iria ficar
Você veio pra ficar
Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim

O meu coração
Já estava aposentado
Sem nenhuma ilusão

Tinha sido maltratado
Tudo se transformou
Agora você chegou

Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim

terça-feira, 8 de novembro de 2011

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Se pronto...



Se pronto chegar la luna llena,
Logo cairão em pétalas frias
Os beijos da noite que brilha.

Se pronto soprarem los vientos de verano,
Logo os sorrisos claros
Abrirão nas manhãs.
Nos lagos, em gotas caindo
as nuvens sobre as lajes quentes da cidade.
Ofuscando as vistas em raios solares.

Se pronto son los hermanos,
Eternamente separados e amantes,
Luna e Sol
logo sentiremos força tão cambiante
Do amor sobre tudo
se quedar.
Nem a mais alquebrada alma  indiferente à luz será
nesses dias.
Nenhuma única pá do moinho de se mover deixará.

E se ouvirá na voz dos pássaros,
Em melodiosos presságios de melhoras,
Ecos sorrisos, todos os lábios,
Até os mais tristes,
Pela força dessa hora.
E tomada tua mão tão distante
na minha,
farei correr teus pés pela trilha
Como se fosse sempre,
Como se fosse dantes.

Se pronto chegar la luna llena,
Logo cairão em pétalas frias
Os beijos da noite que brilha.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sim


Quando deu por si tinha dito sim. SIM.
Apercebeu-se com um susto que a resposta era afirmativa. Tinha dito sim a vida.
E doravante tomaria as rédeas do tempo e dos fatos.
O sim tão poderoso chegara!
Raro e por isso mesmo cheio de poder.

Sim eu quero.
Sim eu posso.
Sim eu mereço.
Sim eu consigo.
Sim eu aceito.

Deu por si carregada de poder, pois o poder vinha da auto-afirmação pela vida.
SIM.
Não dói, não custa nada. E se estiver com medo feche os olhos e sibile como as serpentes.
Siiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmm.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Carta do Cacique Mutua a todos os povos da Terra



O Sol me acordou dançando no meu rosto. Pela manhã, atravessou a palha da oca e brincou com meus olhos sonolentos.
O irmão Vento, mensageiro do Grande Espírito, soprou meu nome, fazendo tremer as folhas das plantas lá fora.
Eu sou Mutua, cacique da aldeia dos Xavantes. Na nossa língua, Xingu quer dizer água boa, água limpa. É o nome do nosso rio sagrado.
Como guiso da serpente, o Vento anunciou perigo. Meu coração pesou como jaca madura, a garganta pediu saliva. Eu ouvi. O Grande Espírito da floresta estava bravo.
Xingu banha toda a floresta com a água da vida. Ele traz alegria e sorriso no rosto dos curumins da aldeia. Xingu traz alimento para nossa tribo.
Mas hoje nosso povo está triste. Xingu recebeu sentença de morte. Os caciques dos homens brancos vão matar nosso rio.
O lamento do Vento diz que logo vem uma tal de usina para nossa terra. O nome dela é Belo Monte. No vilarejo de Altamira, vão construir a barragem. Vão tirar um monte de terra, mais do que fizeram lá longe, no canal do Panamá.
Enquanto inundam a floresta de um lado, prendem a água de outro. Xingu vai correr mais devagar. A floresta vai secar em volta. Os animais vão morrer. Vai diminuir a desova dos peixes. E se sobrar vida, ficará triste como o índio.
Como uma grande serpente prateada, Xingu desliza pelo Pará e Mato Grosso, refrescando toda a floresta. Xingu vai longe desembocar no Rio Amazonas e alimentar outros povos distantes.
Se o rio morre, a gente também morre, os animais, a floresta, a roça, o peixe tudo morre. Aprendi isso com meu pai, o grande cacique Aritana, que me ensinou como fincar o peixe na água, usando a flecha, para servir nosso alimento.
Se Xingu morre, o curumim do futuro dormirá para sempre no passado, levando o canto da sabedoria do nosso povo para o fundo das águas de sangue.
Hoje pela manhã, o Vento me levou para a floresta. O Espírito do Vento é apressado, tem de correr mundo, soprar o saber da alma da Natureza nos ouvidos dos outros pajés. Mas o homem branco está surdo e há muito tempo não ouve mais o Vento.
Eu falei com a Floresta, com o Vento, com o Céu e com o Xingu. Entendo a língua da arara, da onça, do macaco, do tamanduá, da anta e do tatu. O Sol, a Lua e a Terra são sagrados para nós.
Quando um índio nasce, ele se torna parte da Mãe Natureza. Nossos antepassados, muitos que partiram pela mão do homem branco, são sagrados para o meu povo.
É verdade que, depois que homem branco chegou, o homem vermelho nunca mais foi o mesmo. Ele trouxe o espírito da doença, a gripe que matou nosso povo. E o espírito da ganância que roubou nossas árvores e matou nossos bichos. No passado, já fomos milhões. Hoje, somos somente cinco mil índios à beira do Xingu, não sei por quanto tempo.
Na roça, ainda conseguimos plantar a mandioca, que é nosso principal alimento, junto com o peixe. Com ela, a gente faz o beiju. Conta a história que Mandioca nasceu do corpo branco de uma linda indiazinha, enterrada numa oca, por causa das lágrimas de saudades dos seus pais caídas na terra que a guardava.
O Sol me acordou dançando no meu rosto. E o Vento trouxe o clamor do rio que está bravo. Sou corajoso guerreiro, não temo nada.
Caminharei sobre jacarés, enfrentarei o abraço de morte da jiboia e as garras terríveis da suçuarana. Por cima de todas as coisas pularei, se quiserem me segurar. Os espíritos têm sentimentos e não gostam de muito esperar.
Eu aprendi desde pequeno a falar com o Grande Espírito da floresta. Foi num dia de chuva, quando corria sozinho dentro da mata, e senti cócegas nos pés quando pisei as sementes de castanha do chão. O meu arco e flecha seguiam a caça, enquanto eu mesmo era caçado pelas sombras dos seres mágicos da floresta.
O espírito do Gavião Real agora aparece rodopiando com suas grandes asas no céu.
Com um grito agudo perguntou:
Quem foi o primeiro a ferir o corpo de Xingu?
Meu coração apertado como a polpa do pequi não tem coragem de dizer que foi o representante do reino dos homens.
O espírito do Gavião Real diz que se a artéria do Xingu for rompida por causa da barragem, a ira do rio se espalhará por toda a terra como sangue e seu cheiro será o da morte.
O Sol me acordou brincando no meu rosto. O dia se abriu e me perguntou da vida do rio. Se matarem o Xingu, todos veremos o alimento virar areia.
A ave de cabeça majestosa me atraiu para a reunião dos espíritos sagrados na floresta. Pisando as folhas velhas do chão com cuidado, pois a terra está grávida, segui a trilha do rio Xingu. Lembrei que, antes, a gente ia para a cidade e no caminho eu só via árvores.
Agora, o madeireiro e o fazendeiro espremeram o índio perto do rio com o cultivo de pastos para boi e plantações mergulhadas no veneno. A terra está estragada. Depois de matar a nossa floresta, nossos animais, sujar nossos rios e derrubar nossas árvores, querem matar Xingu.
O Sol me acordou brincando no meu rosto. E no caminho do rio passei pela Grande Árvore e uma seiva vermelha deslizava pelo seu nódulo.
Quem arrancou a pele da nossa mãe? gemeu a velha senhora num sentimento profundo de dor.
As palavras faltaram na minha boca. Não tinha como explicar o mal que trarão à terra.
Leve a nossa voz para os quatro cantos do mundo clamou O Vento ligeiro soprará até as conchas dos ouvidos amigos ventilou por último, usando a língua antiga, enquanto as folhas no alto se debatiam.
Nosso povo tentou gritar contra os negócios dos homens. Levamos nossa gente para falar com cacique dos brancos. Nossos caciques do Xingu viajaram preocupados e revoltados para Brasília. Eu estava lá, e vi tudo acontecer.
Os caciques caraíbas se escondem. Não querem olhar direto nos nossos olhos. Eles dizem que nos consultaram, mas ninguém foi ouvido.
O homem branco devia saber que nada cresce se não prestar reverência à vida e à natureza. Tudo que acontecer aqui vai voar com o Vento que não tem fronteiras. Recairá um dia em calor e sofrimento para outros povos distantes do mundo.
O tempo da verdade chegou e existe missão em cada estrela que brilha nas ondas do Rio Xingu. Pronta para desvendar seus mistérios, tanto no mundo dos homens como na natureza.
Eu sou o cacique Mutua e esta é minha palavra! Esta é minha dança! E este é o meu canto!
Porta-voz da nossa tradição, vamos nos fortalecer. Casa de Rezas, vamos nos fortalecer. Bicho-Espírito, vamos nos fortalecer. Maracá, vamos nos fortalecer. Vento, vamos nos fortalecer. Terra, vamos nos fortalecer.
Rio Xingu! Vamos nos fortalecer!
Leve minha mensagem nas suas ondas para todo o mundo: a terra é fonte de toda vida, mas precisa de todos nós para dar vida e fazer tudo crescer.
Quando você avistar um reflexo mais brilhante nas águas de um rio, lago ou mar, é a mensagem de lamento do Xingu clamando por viver.
Cacique Mutua

A quantas anda esse projeto nefasto, vejam aqui

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ao encontro da magia Wanen

Olhaê, bruxos de todo o planeta, divulgando e convidando-vos a juntarem-se a nós nesses 3 dias de celebrações! Contatos na página do evento, no Facebook HERE
Para ver melhor, clique na imagem.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Só um sonho


Não houve o encontro em meio ao tempo e espaço, num dos bancos do bosque. Não se viram pelo brilho do olhar de desejo, na noite que se iniciava. Nunca existiu aquela noite cheia de carícias e beijos quentes. Suas mãos nunca exploraram a força do desejo manifestando-se nos corpos. Jamais suas línguas falaram como as ondas mornas quebrando na praia, numa noite quente de verão. Nem o roçar dos lábios e os suspiros profundos, nunca nada disso encheu o ar de eletricidade, naquele lugar inexistente.
- Nós nunca nos encontramos né?
- Nunca. Isso não passa de um sonho.
- Exato. Não sinto seu perfume, nem seu gosto.
- Meu corpo não está colado no seu, nem se arrepia quando sente teu desejo por mim.
- Nem o meu quer entrar no seu.

Como não existiu esse momento, nunca se desejaram, nem marcaram de se ver sorrateiramente, tendo as árvores como únicas testemunhas. Nem saíram de mãos dadas e olhares cúmplices. Tudo devaneio, tudo só um sonho...