domingo, 4 de março de 2012

O Eu-sombra e os Outros


Toda hora estamos todos ouvindo falar em trabalhar a sombra. Especialmente na Bruxaria, que tem por aspecto mais importante esse trabalho. Muitos a definem por essa busca de equilíbrio, ou tensão, entre a luz e a sombra. Para cada um, no entanto, definir a bruxaria é um caso particular e pessoal, assim como o trabalho da Arte deve ser. Mas, o que é a sombra? Jung, autor dessa definição do lado obscuro e negado do Ego (do Eu), a emprega como relativa ao que de inconsciente existe na alma humana, seu lado negado acima de tudo, o que para a personalidade é seu lado feio e terrível. Na busca da Individuação Jung diz que o trabalho com a sombra é extremamente importante.
Mas, para nós bruxos o que é a sombra? Citei a definição de Jung, primeiro por ter sido ele seu empregador mais frente em seus estudos, segundo porque é a definição de sombra que mais se aproxima da nossa. Sombra é, portanto, aquela nossa face que não se reflete em nós mesmos. E, se reflete até, porém na maioria das vezes não a observamos. Como quando o sol está a pino sobre nossas cabeças, nossa sombra real se posta sob nossos pés e acreditamos que ela não existe. Essa é uma ótima alegoria para esse fato. Luz, ou a crença dela em demasia, torna mais escondida ainda a sombra. Porém ela continua lá, existindo. A sombra é nosso lado negado como quer Jung, mas é também nosso lado escondido, não só de nós mesmos como dos que nos cercam. Saber o que é a sombra não é, afinal, tão difícil. Faz-se mais trabalhoso enxergá-la, esse ser da noite e do escuro, assim como aceitá-la e trabalhar com ela.
Enxergá-la é um fato curioso. Curioso porque, na minha opinião, é o único processo em que se pode realmente contar com os Outros, mesmo que apenas superficialmente. Podemos nos abrir para as críticas, para os apontamentos e a partir daí iniciar nosso trabalho. De fato, nesse caso os Outros terão papel até certo ponto ativo, porque nos processos seguintes esse papel é passivo, como veremos.
Se abertos estivermos a ouvir e ver pelos olhos dos outros, estaremos dando o primeiro passo no trabalho da sombra. Ora, os outros podem vê-la projetando-se, de certa forma melhor que nós. Ë muito engraçado ver alguém tentar alcançar sua própria sombra correndo até ela como um louco, como o louco do tarô. Ele nunca a alcançará de fato, pois que ela o acompanha sempre. Ela está ali, não há o que buscar. A sombra é você, seu reflexo no material. O reflexo que seu corpo, iluminado pela luz, lança nos sólidos. A sombra é seu movimento, sua parte inconsciente e seu duplo aspecto tosco, caricato, mas é você!
Sabendo que ela existe de fato e que o trabalho a ser feito não é de combatê-la ou elimina-la, como alguns podem pensar, sabemos agora que o trabalho com a sombra é algo mais sutil. Eu diria que o elemento de trabalho da sombra não é externo, como o corpo físico ou os corpos ao seu redor, diria que ele é interior. Diria que a luz da Lua Esotérica é seu elemento, o feminino é seu regente. Explico. Se observarmos a carta da força, no baralho de Marselha, temos lá uma mulher que delicadamente segura um leão pela boca. Ao contrário do que o título da carta pode sugerir, ela não lhe aplica uma força física, há ali em ação uma força muito mais sutil. E o fato de ser uma mulher a aplicá-la não é a toa. Esta mulher é a representação do feminino em ação, do feminino que existe em cada um de nós independente de nosso sexo. A força que devemos utilizar no trabalho com nossa fera interior, nossa sombra, é esta. É a força da passividade ativa. Aplicando-lhe uma força que não força.
No trabalho da sombra isso se traduz como uma domesticação dos “defeitos”, de uma convivência passiva e proveitosa de nossas forças internas. Nossa máscara, nossa persona como diria Jung, não é forjada apenas das luzes do sol, da lua e das estrelas, ela também se compões do obscuro crepúsculo, da imensidão do cosmo, do fundo escuro do mar. Ela, nossa máscara, é uma Deusa caprichosa e indomável, ou convivemos com ela, MOLDANDO-A, na sua maleabilidade divina, ou partimo-la em mil pedaços e fazemos outra para nós. Essa atitude, embora radical, muitas vezes se faz necessária. Como toda Deusa, nossa máscara não admite meios termos. As faces do grande diamante brilham todas ao mesmo tempo, mas cada uma reflete por sua vez. Isso torna muito difícil enxergarmos em nós nossa divindade. Nossa máscara é nossa chave para a evolução. Ora, o que já temos de correto e luminoso (É difícil não usar de dicotomia) já é em si divino, porque o que há em nós de obscuro e maléfico não o seria?
No entanto, é mister deixar claro que, não é porque a sombra e sua dicotomia - o mal, seja parte da Grande Divindade que esta face não precise de uns ajustes. Moldar o bem e moldar o mal de nossa máscara é um processo infinito, pois movendo a sombra movemos a luz.
Assim, aceitando esse fato, o de que existe em cada um de nós e em tudo uma sombra que o delineia, é preciso usar esse poder para elevar-nos em nosso caminho. Aqui o trabalho com a sombra ainda se faz através dos Outros, esses seres de energia passiva. Porque os outros são passivos?, poderia perguntar você, já que eles a toda hora se zangam com nossas falhas. Eu te responderia que a reação é mais que natural, é um lei da física. Os Outros são na realidade passivos porque são nossos espelhos. É nos Outros que nos enxergamos, sem os Outros não seriamos Nós. A relação Eu-Outro é muito debatida no meio psicanalítico, mas ela é um fato. Nossa sombra se projeta a nossas costas ante a luz do outro, mas ele também tem sombra, e esse jogo torna a experiência fascinante. Quanto mais luz você for, mas ofuscado se sentirá seu espelho e menos você se verá. Mistério do Caminho...

Entretanto, trabalhar com a sombra não é esperar que os Outros resolvam seus problemas. Trabalhar com a sombra envolve a maior força do universo, aquela que atrai, une, gera e concretiza: o amor. AH! Você poderia dizer. Então é só amar ao próximo! Não é só isso. Amar ao próximo sem amar a si mesmo não é algo que funcione bem. Só podemos amar os Outros quando pudermos amar a nós mesmos. Porque assim veremos nos espelhos, que são os Outros, todo o amor que temos. E sendo nós mesmos espelhos para os Outros, refletiremos esse amor pelo infinito das reproduções de imagens que se obtêm quando se colocam dois espelhos de frente.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O leve fardo


''Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminando a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.''

Assim a pintora mexicana Frida Kahlo descreve um estado alcançado por ela em decorrência de uma vida de sofrimentos, angústias e decepção amorosa. Mas também de elaboração disso tudo através da arte. Para conhecer a história dessa mulher fantástica vá AQUI.

Processos vários podem levar um ser humano a iluminação ou ao relâmpago que ilumina a noite escura da alma. Descreve-se como que uma fração de instante em que tudo se esclarece e a visão torna-se plena. Todo o conhecimento é dado "de uma só vez" e o sujeito a partir dali nunca mais será o mesmo. E tudo pode ser visto e compreendido e tudo é ao mesmo tempo, em unidade. A experiência, claro, transcende as palavras, mas Frida chegou perto da descrição, artista que foi, da aura numinosa do fenômeno. 

Talvez se assemelhe à compreensão de que ao sair da roda viva, ou melhor ao mater-se em seu núcleo de forma plácida e serena, se possa ver tudo com clareza e nitidez. Gosto da metáfora que fala que passamos a vida girando enlouquecidamente no vórtice do furacão, a iluminação seria a chegada a centro, ao olho do furacão, o lugar mais calmo, seguro e, onde toda a força se concentra e de onde se pode contemplar a roda da vida.

Mas o centro da mandala alucinada é justamente o local onde se acredita estar a destruição maior, e muitos passam a vida girando, perdidos na ilusão da passagem ininterrupta de coisas, fatos, pessoas. As vezes, como Frida, a eminencia constante de colapso, de morte e de aniquilação de si mesma pode transformar a morte na vida. Para ela a dor trouxe a iluminação.
Mas esse não é o único caminho.
Não temer o olho do furacão e ter coragem de correr exatamente para debaixo dele é a coragem exigida àqueles que desejam trilhar o caminho da sabedoria. E daí em diante ter força para carregar esse leve fardo pelas áridas terras desse "planeta dolorido".

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A importância mágica da limpeza



Não são poucas as pessoas que procuram desesperadamente resoluções para seus problemas, dentre eles a estagnação da vida e as doenças físicas. Antes de qualquer julgamento místico observo a pessoa a minha frente, e quase sempre ela está bem vestida, por vezes muito arrumada e ostentando roupas e artigos de luxo. Mas eu fico me perguntando se aquela mesma pessoa cheirando ou não a perfume chega em casa e simplesmente põe a roupa de dormir e vai para a cama. Se tenho que dar algum parecer faço primeiro perguntas como essa, quanto à sua limpeza pessoal e da casa. Além dos aspectos mais profundos dos problemas psíquicos e físicos, o problema pode residir na simples mudança de hábitos de higiene. Ocorre que muitas são as pessoas que não suspeitam das consequências de se levar para a cama o corpo e até as roupas com que andaram por todos os lugares da cidade, entrando em contato físico e energético com vibrações nem sempre benéficas. Estes miasmas se predem ao corpo físico tanto quanto ao corpo energético, assim como no plano psíquico.

A Higiene é fator primordial para a saúde nestes três planos: físico, energético e psíquico. A questão torna-se ainda mais grave quando se trata de pessoas sensíveis, médiuns ou espiritualistas, magos, bruxas, enfim todos aqueles que por prática constante e aprofundada têm maior sensibilidade a estas impurezas.
Desse modo, às pessoas que me procuram queixando-se de diversas amarras na vida, bem como de doenças, e nas quais detecto esse comportamento, como também aos caminhantes das sendas espirituais, sempre sugiro ou relembro a importância do banho antes de dormir (de preferência assim que chegar em casa), de jamais dispor a roupa com que vêem da rua sobre a cama, nem levar os sapatos para dentro do quarto. A higiene do leito também é importante, trocar a roupa de cama uma vez por semana, assim como as toalhas de banho.
Não preciso discorrer sobre a fundamental relevância da alimentação e a faxina interna também é saudável. Sugiro um dia de limpeza do organismo por meio da ingestão de maçãs e água somente. Pela manhã sempre beber um copo de água fresca e, se quiser, uma vez por semana tomar um copo de água morna com algumas gotas de limão ao acordar. O jejum tem igual valor se feito com moderação.

Sobre higiene da casa, muito há escrito em livros e sites da Internet, mas não custa lembrar que de nada adianta a casa estar arrumada e perfumada se não houver iluminação e ventilação. A energia vital, cósmica, o ki dos orientais, deve encontrar amplo meio de circulação e condições de chegar a todos os cômodos e recantos. A luz do sol é rica em prana, o alimento energético do mundo e o vento é o veículo da sabedoria.
Por fim, chamo a atenção para a limpeza psíquica que encontra grande aliada na meditação ou no silêncio. Alguns minutos diários de introspecção, silêncio e respirações profundas já são suficientes para uma mente mais serena e um corpo espiritual mais imune a ataques. 

A meditação é feita por meio de técnicas várias que devem ser buscadas conforme o tipo de mente e intenção. Então, sem neuroses desnecessárias e, independente do clima em que vivemos, a higiene física, psíquica e da nossa moradia é possível, requer apenas alguns minutos diários de nossa atenção. 






terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Uma poesia de férias procês



Por que quis Cris 

deixar de ser tola

e crescer.
Querer ser quis Cris.
E no vale distante,
por entre as flores falantes,
encontrou Cris a luz
de um alvorecer.
Cris e a luz conversaram sobre o ser.
O que é e não é?
Cris quis entender.
E partiu novamente, vagando a caminhante
em busca do saber...
Viu Cris
que saber também é crer.
E Cris quis mais do que ser
quis saber ser mais Cris
e crescer.

Poesiazinha infame. Luciana Celestino. Natal, 2012.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A solução para a Terra não cai do céu


Leonardo Boff em A solução para a Terra não cai do céu
Ed. Record, Rio de Janeiro, 2009.


Nossa civilização ocidental hoje mundializada tem sua origem histórica na Grécia do século VI antes de nossa era. Ruíra o mundo do mito e da religião que era o eixo organizador da sociedade. Para pôr ordem àquele momento crítico, fez-se, num lapso de pouco mais de 50 anos, uma das maiores criações intelectuais da humanidade. Surgiu a era da razão critica que se expressou pela filosofia, pela política, pela democracia, pelo teatro, pela poesia e pela estética. Figuras exponenciais foram Sócrates, Platão, Aristóteles e os sofistas que gestaram a arquitetônica do saber, subjacente ao nosso paradigma civilizacional: foi Péricles como governante à frente da democracia; foi Fídias da estética elegante; foram os grandes autores das tragédias como Sófocles, Eurípides e Ésquilo; foram os jogos olímpicos e outras manifestações culturais que não cabe aqui referir.

Esse paradigma se caracteriza pelo predomínio da razão que deixou para trás a percepção do Todo, o sentido da unidade da realidade que caracterizava os pensadores chamados pré-socráticos, os portadores do pensamento originário. Agora se introduzem os famosos dualismos: mundo-Deus, homem-natureza, razão-sensibilidade, teoria-prática. A razão criou a metafísica que na compreensão de Heidegger faz de tudo objeto e se instaura como instância de poder sobre este objeto. O ser humano deixa de se sentir parte da natureza para se confrontar com ela e submetê-la ao projeto de sua vontade.

Esse paradigma ganhou sua expressão acabada mil anos depois, no século XVI, com os fundadores do paradigma moderno, Descartes, Newton, Bacon e outros. Com eles se consagrou a cosmovisão mecanicista e dualista: a natureza de um lado e o ser humano de outro, de frente e encima dela, como seu “mestre e dono” (Descartes) e coroa da criação em função do qual tudo existe. Elaborou-se o ideal do progresso ilimitado que supõe a dominação da natureza, no pressuposto de que esse progresso poderia caminhar infinitamente na direção do futuro. Nos últimos decênios, a cobiça de acumular transformou tudo em mercadoria a ser negociada e consumida. Esquecemos que os bens e serviços da natureza são para todos e não podem ser apropriados apenas por alguns.

Depois de quatro séculos de vigência dessa metafísica, quer dizer, desse modo de ser e de ver, verificamos que a natureza teve que pagar um preço alto para custear esse modelo de crescimento/desenvolvimento. Agora tocamos nos limites de suas possibilidades. A civilização técnico-científica chegou a um ponto em que ela pode pôr fim a si mesma, degradar profundamente a natureza, eliminar grande parte do sistema-vida e, eventualmente, erradicar a espécie humana. Seria a realização de um armagedon ecológico-social.

Tudo começou há milênios na Grécia. E agora parece terminar na Grécia, uma das primeiras vitimas do horror econômico, cujos banqueiros, para salvar seus ganhos, lançaram toda uma sociedade no desespero. Chegou à Irlanda, a Portugal, à Itália, podendo-se se estender à Espanha e à França e, quiçá, a todo o sistema mundial.

Estamos assistindo à agonia de um paradigma milenar que está, parece, encerrando sua trajetória histórica. Pode demorar ainda dezenas de anos, como um moribundo que resiste, mas o fim é previsível. Com seus recursos internos não tem condições de se reproduzir.

Temos que encontrar outro tipo de relação com a natureza, outra forma de produzir e de consumir, desenvolvendo um sentido geral de interdependência face à comunidade de vida e de responsabilidade coletiva pelo nosso futuro. A não encetarmos esta conversão, ditaremos para nós mesmos o veredicto de desaparecimento. Ou nos transformamos ou desapareceremos.

Faço minhas as palavras de Celso Furtado, economista-pensador: “Os homens de minha geração demonstraram que está ao alcance do engenho humano conduzir a humanidade ao suicídio. Espero que a nova geração comprove que também está ao alcance do homem abrir caminho de acesso a um mundo em que prevaleçam a compaixão, a felicidade, a beleza e a solidariedade”. Mas à condição de mudarmos de paradigma.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Férias e Felicidade


Amigos da Casa Bruxal, estou de férias. Estou de férias de muitas coisas chatas e tristes, não só do trabalho. Finalmente a vida me deu férias!
Férias e Felicidade. 
Felicidade - descobri -, é um estado tão pleno que faltam, essencialmente, as palavras. E não é fugaz como dizem, pode ser sólida e maleável conforme nosso empenho em mantê-la sempre como uma chama acesa. 
Realmente tenho estado feliz e quero SER sempre feliz à luz dessa chama que veio iluminar a estrada escura que tenho trilhado. Agora o Caminho está iluminado e posso ver como ele é belo, florido, colorido, rico. Posso ver com clareza também os obstáculos, as armadilhas e os desafios, mas há asas nas minhas costas. E outro ser alado caminhando comigo.
Tudo parece infinitamente possível, simples e feliz.
Então, amigos leitores, esta casa está mais completa agora. Tenho O amor.
Desejo a todos um 2012 cheio dessa felicidade que tentei descrever aqui, nestas pobres e ineficientes palavras. Desejo que toda fartura e prosperidade que me foram permitidas sejam compartilhadas por vocês e que as de vocês cheguem a todos os corações que os cercam.
Abraços carinhosos e bençãos de luz.

sábado, 24 de dezembro de 2011

A verdadeira história do Natal


A humanidade comemora essa data desde bem antes do nascimento de Jesus. Conheça o bolo de tradições que deram origem à Noite Feliz

por Texto Thiago Minami e Alexandre Versignassi


Roma, século 2, dia 25 de dezembro. A população está em festa, em homenagem ao nascimento daquele que veio para trazer benevolência, sabedoria e solidariedade aos homens. Cultos religiosos celebram o ícone, nessa que é a data mais sagrada do ano. Enquanto isso, as famílias apreciam os presentes trocados dias antes e se recuperam de uma longa comilança.

Mas não. Essa comemoração não é o Natal. Trata-se de uma homenagem à data de “nascimento” do deus persa Mitra, que representa a luz e, ao longo do século 2, tornou-se uma das divindades mais respeitadas entre os romanos. Qualquer semelhança com o feriado cristão, no entanto, não é mera coincidência.

A história do Natal começa, na verdade, pelo menos 7 mil anos antes do nascimento de Jesus. É tão antiga quanto a civilização e tem um motivo bem prático: celebrar o solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que acontece no final de dezembro. Dessa madrugada em diante, o sol fica cada vez mais tempo no céu, até o auge do verão. É o ponto de virada das trevas para luz: o “renascimento” do Sol. Num tempo em que o homem deixava de ser um caçador errante e começava a dominar a agricultura, a volta dos dias mais longos significava a certeza de colheitas no ano seguinte. E então era só festa. Na Mesopotâmia, a celebração durava 12 dias. Já os gregos aproveitavam o solstício para cultuar Dionísio, o deus do vinho e da vida mansa, enquanto os egípcios relembravam a passagem do deus Osíris para o mundo dos mortos. Na China, as homenagens eram (e ainda são) para o símbolo do yin-yang, que representa a harmonia da natureza. Até povos antigos da Grã-Bretanha, mais primitivos que seus contemporâneos do Oriente, comemoravam: o forrobodó era em volta de Stonehenge, monumento que começou a ser erguido em 3100 a.C. para marcar a trajetória do Sol ao longo do ano.



A comemoração em Roma, então, era só mais um reflexo de tudo isso. Cultuar Mitra, o deus da luz, no 25 de dezembro era nada mais do que festejar o velho solstício de inverno – pelo calendário atual, diferente daquele dos romanos, o fenômeno na verdade acontece no dia 20 ou 21, dependendo do ano. Seja como for, esse culto é o que daria origem ao nosso Natal. Ele chegou à Europa lá pelo século 4 a.C., quando Alexandre, o Grande, conquistou o Oriente Médio. Centenas de anos depois, soldados romanos viraram devotos da divindade. E ela foi parar no centro do Império.

Mitra, então, ganhou uma celebração exclusiva: o Festival do Sol Invicto. Esse evento passou a fechar outra farra dedicada ao solstício. Era a Saturnália, que durava uma semana e servia para homenagear Saturno, senhor da agricultura. “O ponto inicial dessa comemoração eram os sacrifícios ao deus. Enquanto isso, dentro das casas, todos se felicitavam, comiam e trocavam presentes”, dizem os historiadores Mary Beard e John North no livro Religions of Rome (“Religiões de Roma”, sem tradução para o português). Os mais animados se entregavam a orgias – mas isso os romanos faziam o tempo todo. Bom, enquanto isso, uma religião nanica que não dava bola para essas coisas crescia em Roma: o cristianismo.

Solstício cristão


As datas religiosas mais importantes para os primeiros seguidores de Jesus só tinham a ver com o martírio dele: a Sexta-Feira Santa (crucificação) e a Páscoa (ressurreição). O costume, afinal, era lembrar apenas a morte de personagens importantes. Líderes da Igreja achavam que não fazia sentido comemorar o nascimento de um santo ou de um mártir – já que ele só se torna uma coisa ou outra depois de morrer. Sem falar que ninguém fazia idéia da data em que Cristo veio ao mundo – o Novo Testamento não diz nada a respeito. Só que tinha uma coisa: os fiéis de Roma queriam arranjar algo para fazer frente às comemorações pelo solstício. E colocar uma celebração cristã bem nessa época viria a calhar – principalmente para os chefes da Igreja, que teriam mais facilidade em amealhar novos fiéis. Aí, em 221 d.C., o historiador cristão Sextus Julius Africanus teve a sacada: cravou o aniversário de Jesus no dia 25 de dezembro, nascimento de Mitra. 
A Igreja aceitou a proposta e, a partir do século 4, quando o cristianismo virou a religião oficial do Império, o Festival do Sol Invicto começou a mudar de homenageado. “Associado ao deus-sol, Jesus assumiu a forma da luz que traria a salvação para a humanidade”, diz o historiador Pedro Paulo Funari, da Unicamp. Assim, a invenção católica herdava tradições anteriores. “Ao contrário do que se pensa, os cristãos nem sempre destruíam as outras percepções de mundo como rolos compressores. Nesse caso, o que ocorreu foi uma troca cultural”, afirma outro historiador especialista em Antiguidade, André Chevitarese, da UFRJ.

Não dá para dizer ao certo como eram os primeiros Natais cristãos, mas é fato que hábitos como a troca de presentes e as refeições suntuosas permaneceram. E a coisa não parou por aí. Ao longo da Idade Média, enquanto missionários espalhavam o cristianismo pela Europa, costumes de outros povos foram entrando para a tradição natalina. A que deixou um legado mais forte foi o Yule, a festa que os nórdicos faziam em homenagem ao solstício. O presunto da ceia, a decoração toda colorida das casas e a árvore de Natal vêm de lá. Só isso.

Outra contribuição do norte foi a idéia de um ser sobrenatural que dá presentes para as criancinhas durante o Yule. Em algumas tradições escandinavas, era (e ainda é) um gnomo quem cumpre esse papel. Mas essa figura logo ganharia traços mais humanos.

Nasce o Papai Noel


Ásia Menor, século 4. Três moças da cidade de Myra (onde hoje fica a Turquia) estavam na pior. O pai delas não tinha um gato para puxar pelo rabo, e as garotas só viam um jeito de sair da miséria: entrar para o ramo da prostituição. Foi então que, numa noite de inverno, um homem misterioso jogou um saquinho cheio de ouro pela janela (alguns dizem que foi pela chaminé) e sumiu. Na noite seguinte, atirou outro; depois, mais outro. Um para cada moça. Aí as meninas usaram o ouro como dotes de casamento – não dava para arranjar um bom marido na época sem pagar por isso. E viveram felizes para sempre, sem o fantasma de entrar para a vida, digamos, “profissional”. Tudo graças ao sujeito dos saquinhos. O nome dele? Papai Noel.

Bom, mais ou menos. O tal benfeitor era um homem de carne e osso conhecido como Nicolau de Myra, o bispo da cidade. Não existem registros históricos sobre a vida dele, mas lenda é o que não falta. Nicolau seria um ricaço que passou a vida dando presentes para os pobres. Histórias sobre a generosidade do bispo, como essa das moças que escaparam do bordel, ganharam status de mito. Logo atribuíram toda sorte de milagres a ele. E um século após sua morte, o bispo foi canonizado pela Igreja Católica. Virou são Nicolau.

Um santo multiuso: padroeiro das crianças, dos mercadores e dos marinheiros, que levaram sua fama de bonzinho para todos os cantos do Velho Continente. Na Rússia e na Grécia Nicolau virou o santo nº1, a Nossa Senhora Aparecida deles. No resto da Europa, a imagem benevolente do bispo de Myra se fundiu com as tradições do Natal. E ele virou o presenteador oficial da data. Na Grã-Bretanha, passaram a chamá-lo de Father Christmas (Papai Natal). Os franceses cunharam Pére Nöel, que quer dizer a mesma coisa e deu origem ao nome que usamos aqui. Na Holanda, o santo Nicolau teve o nome encurtado para Sinterklaas. E o povo dos Países Baixos levou essa versão para a colônia holandesa de Nova Amsterdã (atual Nova York) no século 17 – daí o Santa Claus que os ianques adotariam depois. Assim o Natal que a gente conhece ia ganhando o mundo, mas nem todos gostaram da idéia.

Natal fora-da-lei


Inglaterra, década de 1640. Em meio a uma sangrenta guerra civil, o rei Charles 1º digladiava com os cristãos puritanos – os filhotes mais radicais da Reforma Protestante, que dividiu o cristianismo em várias facções no século 16.

Os puritanos queriam quebrar todos os laços que outras igrejas protestantes, como a anglicana, dos nobres ingleses, ainda mantinham com o catolicismo. A idéia de comemorar o Natal, veja só, era um desses laços. Então precisava ser extirpada.

Primeiro, eles tentaram mudar o nome da data de “Christmas” (Christ’s mass, ou Missa de Cristo) para Christide (Tempo de Cristo) – já que “missa” é um termo católico. Não satisfeitos, decidiram extinguir o Natal numa canetada: em 1645, o Parlamento, de maioria puritana, proibiu as comemorações pelo nascimento de Cristo. As justificativas eram que, além de não estar mencionada na Bíblia, a festa ainda dava início a 12 dias de gula, preguiça e mais um punhado de outros pecados.

A população não quis nem saber e continuou a cair na gandaia às escondidas. Em 1649, Charles 1º foi executado e o líder do exército puritano Oliver Cromwell assumiu o poder. As intrigas sobre a comemoração se acirraram, e chegaram a pancadaria e repressões violentas. A situação, no entanto, durou pouco. Em 1658 Cromwell morreu e a restauração da monarquia trouxe a festa de volta. Mas o Natal não estava completamente a salvo. Alguns puritanos do outro lado do oceano logo proibiriam a comemoração em suas bandas. Foi na então colônia inglesa de Boston, onde festejar o 25 de dezembro virou uma prática ilegal entre 1659 e 1681. O lugar que se tornaria os EUA, afinal, tinha sido colonizado por puritanos ainda mais linha-dura que os seguidores de Cromwell. Tanto que o Natal só virou feriado nacional por lá em 1870, quando uma nova realidade já falava mais alto que cismas religiosas.

Tio Patinhas

Londres, 1846, auge da Revolução Industrial. O rico Ebenezer Scrooge passa seus Natais sozinho e quer que os pobres se explodam “para acabar com o crescimento da população”, dizia. Mas aí ele recebe a visita de 3 espíritos que representam o Natal. Eles lhe ensinam que essa é a data para esquecer diferenças sociais, abrir o coração, compartilhar riquezas. E o pão-duro se transforma num homem generoso.

Eis o enredo de Um Conto de Natal, do britânico Charles Dickens. O escritor vivia em uma Londres caótica, suja e superpopulada – o número de habitantes tinha saltado de 1 milhão para 2,3 milhões na 1a metade do século 19. Dickens, então, carregou nas tintas para evocar o Natal como um momento de redenção contra esse estresse todo, um intervalo de fraternidade em meio à competição do capitalismo industrial. Depois, inúmeros escritores seguiram a mesma linha – o nome original do Tio Patinhas, por exemplo, é Uncle Scrooge, e a primeira história do pato avarento, feita em 1947, faz paródia a Um Conto de Natal. Tudo isso, no fim das contas, consolidou a imagem do “espírito natalino” que hoje retumba na mídia. Quer dizer: quando começar o próximo especial de Natal da Xuxa, pode ter certeza de que o fantasma de Dickens vai estar ali.

Outra contribuição da Revolução Industrial, bem mais óbvia, foi a produção em massa. Ela turbinou a indústria dos presentes, fez nascer a publicidade natalina e acabou transformando o bispo Nicolau no garoto-propaganda mais requisitado do planeta. Até meados do século 19, a imagem mais comum dele era a de um bispo mesmo, com manto vermelho e mitra – aquele chapéu comprido que as autoridades católicas usam. Para se enquadrar nos novos tempos, então, o homem passou por uma plástica. O cirurgião foi o desenhista americano Thomas Nast, que em 1862, tirou as referências religiosas, adicionou uns quilinhos a mais, remodelou o figurino vermelho e estabeleceu a residência dele no Pólo Norte – para que o velhinho não pertencesse a país nenhum. Nascia o Papai Noel de hoje. Mas a figura do bom velhinho só bombaria mesmo no mundo todo depois de 1931, quando ele virou estrela de uma série de anúncios da Coca-Cola. A campanha foi sucesso imediato. Tão grande que, nas décadas seguintes, o gorducho se tornou a coisa mais associada ao Natal. Mais até que o verdadeiro homenageado da comemoração. Ele mesmo: o Sol.

Para saber mais
Religions of Rome - Mary Beard, John North; Cambridge, EUA, 1998
Santa Claus: A Biography - Gerry Bowler, McClelland & Stewart, EUA, 2005
www.candlegrove.com/solstice.html - Como várias culturas comemoram o solstício de inverno. 

Fonte:

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Cama na floresta



Há um mar de profundidade abismal no silêncio que me toma. Mergulhando-me em você. Pulsando com todo meu ser como uma nota musical. E tudo por segundos eternos.
Só aos poucos volto a ouvir um som indistinto, depois da tempestade elétrica que se abateu. E clareou a floresta.
Devagar abro os olhos, na meia luz.
O zumbido se transforma em música, um blues baixinho que demoro a identificar a origem. Suspiro e ainda sinto os últimos raios a percorrerem meu corpo. A música vem lá de fora. Vem do teu sorriso largo. Vem dos teus olhos. Vem do vento nas árvores e dos seres da noite.
Caio em teus braços. Amor quente e convidativo. Calmo e doce.
Outra onda de energia pulsante.
E suspiro, deixando meu corpo mergulhar na preguiça macia da nossa cama. E há teus braços ao meu redor e tua voz dizendo amor.
E há sempre o som da floresta lá fora.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Por que ela já disse, só posso repetir.




Se eu fosse eu

Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR. 
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser LOCOMOVIDA do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida. 
Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. 
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro. 
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. 
No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.
Clarice Lispector



quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O que diria meu Mestre Pessoa sobre a vida

Diz meu Mestre para nunca "ficarmos à sombra de nós mesmos".
E eu digo:

Esse cenário vivo a modificar-se
O que é
A vida.
Vamos erguendo essas torres, muros, escadarias
E um velho fosso.
No cenário a angústia, a intensidade, a agonia
Todo dia.
E essa força que nos invade e impurra
E diz que siga.
Vamos correndo na estrada, as vezes vazia
Da Vida.
E é isso, correr sem medida, sem prumo, sem guia.
Que doce não saber o vem ao virar
A esquina.
E uma vez ultrapassado o fosso, descida a escadaria,
Uma vez pulado o muro e deixado
Para trás
A Torre.
Oh! Que incrível é a paisagem dessa nova mirada.
Vem de repente outra nova estrada
E correndo ou lentamente
Seguimos.