sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Deusa de dez mil nomes - Parte II*

A dádiva da Deusa

E qual seria a dádiva da Deusa? Este presente não se restringe mais à terra nem ao planeta, mas a toda e qualquer forma de vida e de morte. Incluem-se aí as dádivas tanto microcósmicas quanto macrocósmicas. O conhecido e não conhecido, o visível e o invisível. Para além do caráter criador humano, o caráter criador universal. Sem a potência feminina não há criação. Como Campbell (1999) observou, na Índia a criação é simbolizada pela união entre o lingam e a yoni, o falo e a vagina, o Deus e a Deusa, a potencia masculina, geradora, e a potencia feminina, manifestadora.
Como você vê, o mistério sexual, na Índia, como em quase todo o mundo, é um mistério sagrado. É o mistério da geração da vida. O ato de gerar uma criança é um ato cósmico e deve ser entendido como sagrado. Por isso, o símbolo que mais claramente representa o mistério do despejar da energia da vida, no campo do tempo, é do lingam e a yoni, os poderes masculino e feminino, em conjunção criativa (CAMPBELL, 1999, p. 179).
Compreendemos que a dádiva da Deusa é a vida, assim como também é a morte, pois ambas são intrínsecas. A vida se alimenta da morte. O entendimento desse postulado fica cada vez mais evidente frente às descobertas científicas atuais como as teorias da física quântica, o princípio da incerteza, a teoria do caos e dos campos morfogenéticos. A marcha da humanidade para uma visão não determinista do mundo abrirá novas possibilidades de evolução e aceitação da morte como um processo natural e tornará mais fácil o entendimento de que todo sistema vivo precisa matar para se alimentar. A partir daí, aspectos da Deusa destruidora serão reabilitados, assim como já estão sendo seus aspectos de criadora.
Kali Ma por Vineet Agaarwal
O culto à Deusa sobreviveu a períodos históricos e suas adversidades na figura da Magna Mater dos Bálcãs e do mundo grego, por exemplo. E vive em continuidade sob as suas múltiplas formas e inúmeros nomes. Riane Eisler em seu livro O Cálice e a Espada (1989) afirma que é possível perceber esta continuidade religiosa em deidades tão conhecidas quanto: Ísis, Nut e Maat, no Egito; Isthar, Astarte e Lilith, no Crescente Fértil; Deméter, Core e Hera, na Grécia; e Atárgatis, Ceres e Cibele, em Roma.
Mesmo depois, em sua própria herança judaico-cristã, ainda podemos identificá-las na Rainha dos Céus, cujos arvoredos são queimados na Bíblia, na Shekhina da tradição cabalística hebraica e na Virgem Maria Católica, a Sagrada Mãe de Deus (EISLER, 1989, p. 33).
Uma das explicações claras para essa continuidade da Deusa ao longo da trajetória humana, mesmo que em alguns momentos Ela pareça não estar presente no imaginário religioso da humanidade, é encontrada na filosofia das religiões consagradas à Deusa na Índia, onde segundo Campbell, a simbologia Dela é dominante até hoje. Maya como é chamado o divino feminino, é o espaço e o tempo, e o mistério para além Dela é o mistério para além dos pares de opostos.
Assim, não é masculina nem feminina. Nem é nem deixa de ser. Mas tudo está dentro dela, de modo que os deuses são seus filhos. Tudo que você vê, tudo aquilo em que possa pensar, é produto da Deusa (CAMPBELL, 1999, p. 177).
Sua continuidade aparece em função dos estágios psíquicos humanos que Campbell afirma serem melhor explicados pelo sistema existente na
Os sete principais centros energéticos, sendo o último
o do topo da cabeça (chákra da coroa).
 Índia, que descreve os estágios do desenvolvimento espiritual humano. Esse sistema considera que ao longo da coluna vertebral existem sete centros de energia, chamados de Chakras, e eles são os estágios pelos quais passa a consciência do homem rumo à expansão. Tomando os quatro primeiros é possível explicar a metáfora do nascimento virginal. O primeiro chakra localiza-se entre o reto e o aparelho reprodutor e se refere aos processos de sustentação da vida, entre eles o da alimentação. Segundo Campbell ele seria representado pela serpente em seu aspecto de devoradora e renovadora da vida.
O segundo chakra é representado pelo aparelho reprodutor, significando a necessidade da procriação; o chakra logo acima se localiza na altura do umbigo e concentra a vontade de poder, domínio e realização, como também o desejo de dominar, conquistar e subjugar os outros. Segundo o sistema hindu, essas três funções: alimentação, procriação e domínio/conquista, são todas de instinto animal, e seus centros estão localizados na bacia pélvica. O quarto centro se encontra na altura do coração, onde está a abertura para a compaixão. Passa-se assim, a partir desse ponto, do campo da ação animal para o campo da ação propriamente humana e espiritual.
E para cada um desses quatro centros é imaginada uma forma simbólica. Na base, por exemplo, onde se encontra o primeiro centro, o símbolo é o do lingam e a yoni, os órgãos masculino e feminino, em conjunção. E no centro do coração aparecem outra vez o lingam e a yoni, ou seja, os órgãos masculino e feminino, em conjunção, mas aqui representados em dourado, para simbolizar o nascimento virginal, quer dizer, o nascimento do homem espiritual a partir do homem animal (CAMPBELL, 1999, p. 184).
Desse modo, o nascimento virginal tanto do homem quanto de um deus imbuído de compaixão se dá no nível do coração, como assim foi com Buda, nascido do flanco de sua mãe (entendido como do chakra cardíaco) e com Cristo, nascido de uma virgem. Metáforas para o nascimento espiritual de ambos. Segundo Campbell, os três chakras inferiores não devem por isso ser entendidos como obstáculos a serem recusados, mas transcendidos, subordinados ao coração.
O nível do coração é o espaço de ação da compaixão, mas também da maternidade, por isso bem representado por Maria, Mãe de Deus, por Ísis com seu filho Hórus, Deméter e sua filha Core, e todas as Deusas Mães da mitologia, que se doam sempre em favor do outro, que sofrem com o outro, significado da compaixão. No entanto, nos lembra Campbell, antes da imagem bíblica da Virgem Maria, temos a imagem mítica de Ísis amamentando Hórus, fonte da qual os padres do cristianismo beberam a metáfora da Madona.
Também Lúcio Apuleio (apud CAMPEBLL, p. 189), em seu célebre livro O Asno de Ouro, escrito no século II a.C., faz uma das mais famosas reverências a Ísis como a Deusa que encarna todas as formas do feminino divino. O protagonista da trama é transformado em asno graças as suas aventuras penosas e humilhantes e só consegue voltar a sua forma humana através de uma bela prece dirigida à Deusa Ísis e depois se convertendo ao seu culto.
Dessa forma, o herói do romance de Apuleio sofre um nascimento espiritual através da contemplação da Deusa. Foi a Dádiva da Deusa a ele concedida. De acordo com Campbell esse renascimento também pode se dar através dos poderes do divino masculino, no entanto, “nesse sistema de símbolos, a mulher se torna o princípio regenerador” (1999, p. 190).
A Dádiva da deusa é aquela recompensa que é dada ao herói não só ao final da sua jornada mas ao longo dela. De acordo com Campbell em O herói de mil faces (1995), a mulher representa na linguagem da mitologia a totalidade do que pode ser conhecido e o herói é aquele que aprende. Na jornada do herói, à medida que ele progride na lenta iniciação que é a vida, conhece as várias formas da Deusa.
(...) ela jamais pode ser maior que ele, embora sempre seja capaz de prometer mais do que ele já é capaz de compreender. Ela o atrai e guia e lhe pede que rompa os grilhões que o prendem. E se ele puder alcançar-lhe a importância, os dois, o sujeito do conhecimento e seu objeto, serão libertados de todas as limitações (p. 117).
Isis de todos os nomes e descrita por Apuleius.
Este encontro com a Deusa, encarnada em toda mulher, como afirma Campbell (1995), é o teste final do talento de que o herói é dotado para obter a benção do amor, a caridade, a compaixão, que é a própria vida, vivida como o invólucro da eternidade. É preciso que o herói seja dotado daquilo que os trovadores e menestréis chamavam de “coração gentil”. A Deusa não pode ser compreendida, nem alcançada, nem servida por um desejo animal, nem pela repulsa, nem pelo simples desespero. “(...) mas, apenas pela gentileza: awaré (“simpatia gentil”), eis o seu nome na poesia cortesã do Japão dos séculos X-XII” (CAMPBELL, 1995, p. 118)[1].
E assim Ísis atendendo às preces gentis e devotadas do personagem asno de Apuleio lhe diz alguns dos dez mil nomes pelos quais é chamada e dá-lhe a sua maior dádiva. E em honra Dela finalizo reproduzindo esta bela passagem:
‘Eis me aqui Lúcio. Eu vim! Teus lamentos e tuas preces comoveram-me e vim socorrer-te. Sou a mãe natural de todas as coisas, senhora e governante de todos os elementos, progenitora primordial dos mundos, chefe dos poderes divinos, rainha de todos que estão nos infernos, a principal dentre todos os que habitam os céus, manifestação absoluta, sob uma forma única, de todos os deuses e deusas (deorum dearum-que facies uniformis). Minha vontade dispõe sobre os planetas do céu, sobre todos os ventos dos mares e sobre o lamentável silêncio do inferno. Minha pessoa e minha divindade são adoradas por todo o mundo, de maneiras diversas, em costumes variáveis e sob diferentes nomes. Atento! Os frígios que foram os primeiros a dentre os homens, chamam-me Pessinunte, de ‘A Mãe dos Deuses’; os atenienses, que brotaram de seu próprio solo, Minerva de Cécrops; os cipriotas, cercados pelo mar, dizem-me Vênus da cidade de Pafo; os cretenses, que portam flechas, chamam-me Diana de Dicte; os sicilianos, que falam três línguas, Prosérpina Infernal; os que obedeciam o culto de Elêusis, adoravam-me como Ceres, sua antiga deusa; outros ainda me diziam Juno, Belone, Hécate; outros Ranúsia. Ambos os tipos de etíopes, que moram no Oriente e que são iluminados pelos matutinos raios solares, bem como os egípcios, os quais são excelentes em todo tipo de doutrina arcaica, estes estão acostumados, por força de suas cerimônias adequadas, a cultuar-me sob meu verdadeiro nome – A Rainha Ísis. Atento! Eis-me aqui a apiedar-me da tua sina e de tua tribulação. Vim para favorecer-te e ajudar-te; cessa teu pranto e tuas lamentações; afugenta a tristeza, pois este é o dia da salvação determinada por minha providência’ (APULEIO apud GRAVES, 2003, p. 93).



 Referências
ABRAHAM, Ralph; McKENA, Terence; SHELDRAKE, Rupert. Caos, criatividade e o retorno do sagrado: triálogos nas fronteiras do Ocidente. Trad.: Newton R. Eichenberg. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1994.
CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. Trad.: Carlos F. Moisés. São Paulo: Palas Atena, 1990.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces.Trad.: Adail U. Sobral. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1995.
ELIADE, Mircea. Tratado de historia das religiões. Trad.: Fernando Tomaz e Matália Nunes. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
EISLER, Riane. O cálice e a espada: nossa história, nosso futuro. Trad.: Terezinha Santos. Rio de Janeiro: Imago, 1989.
GRAVES, Robert. A Deusa Branca: uma gramática histórica do mito poético. Trad.: Bento de Lima. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.


Sugestão de site:
http://www.esotericarchives.com/kircher/goddess.htm

* Por Luciana Carlos Celestino.

[1] Grifo do autor.

terça-feira, 3 de abril de 2012

A Deusa de dez mil nomes - Parte I


“Eu sou tudo que foi,
tudo que é e tudo o que será,
e meu véu, nenhum mortal ainda o suspendeu”.
Inscrição no santuário da Deusa Ísis[1].


A Deusa-Mãe do Egeu
A primeira associação que se fez da Deusa na história das religiões no Ocidente foi com a imagem da Mãe. A Mãe-Terra para os povos caçadores-coletores e, posteriormente, a Mãe-Terra esposa do Pai-Céu para os povos agricultores (ELIADE, 1998). Segundo Joseph Campbell (1999) a floração básica da civilização ocidental ocorreu nos grandes vales dos rios Nilo, Tigre-Eufrates, Indo, e posteriormente Ganges[2] onde a Deusa era soberana. A partir do quarto milênio antes de Cristo os indo-europeus começaram a descer do norte e do sul, destruindo cidades da noite para o dia. Neste processo trouxeram sua mitologia de orientação masculina e guerreira que foi sendo imposta através da invasão e da guerra aos povos que estavam ao longo do seu trajeto. E a Deusa foi relegada a segundo plano.
Os invasores semitas eram pastores de cabras e ovelhas, os indo-europeus eram pastores de gado. Ambos primitivamente, eram caçadores, de modo que também eram assassinos, nômades e adoradores de deuses guerreiros, “lançadores de raios, como Zeus ou Jeová” (CAMPBELL, 1999, p. 180). O mito de Tiamat nada mais é do que a narrativa metafórica desse processo. Tiamat, o Abismo, a Fonte inexaurível é morta por Marduk, o deus babilônico de então, e seu corpo despedaçado passa a enfeitar os céus. Segundo Campbell a proeza de Marduk se constitui, na verdade, num ato de suprema revogação, pois na mitologia da Deusa ela própria já é o universo, os céus. “Mas o mito de orientação masculina se impõe, e ele se torna, aparentemente, o criador[3]” (1999, p.180).
No processo de imposição dos mitos indo-europeus sobre os dos povos das margens do Egeu, o também mitólogo Robert Graves (2003), acredita que há uma estreita conexão entre os primitivos mitos dos hebreus, dos gregos e dos celtas que consiste no fato de que todas as três raças foram civilizadas pelo mesmo povo do mar do Egeu, que não só as conquistou como as absorveu. Graves chama atenção (p. 81):
Isto não é meramente de interesse arqueológico, pois o apelo popular do catolicismo moderno reside, apesar da Trindade patriarcal e do sacerdócio exclusivamente masculino, na tradição religiosa egéia da Mãe e do Filho, à qual preferiu inclinar-se lentamente mais do que a seus elementos aramaicos ou indo-europeus do “deus-guerreiro”[4].
Campbell, por sua vez, cita um Upanixade de cerca do século VII a.C., época exata em que a Deusa começava a surgir também na região do Egeu. Este texto sagrado narra o encontro surpreendente dos deuses védicos com uma coisa estranha e amorfa no caminho, uma espécie de neblina fumarenta, como passa a narrar o próprio Campbell (1990, p. 191):
“O que é isso?” Nenhum deles sabe o que poderia ser. Então um deles sugere: “vou descobrir o que é”. Esse, então, se dirige àquela coisa esfumaçada e diz: “Eu sou Agni, o Senhor do Fogo; posso queimar qualquer coisa. Quem é você?” E do meio da espessa neblina sai voando um pedaço de palha, que cai no chão, e uma voz diz: “Vamos ver você queimar isso”. Agni descobre que não é capaz de fazê-lo. Ele então retorna até onde estão os outros deuses e diz: “Isso sem dúvida é muito estranho!” “Bem, então”, diz o Senhor do Vento, “deixe-me tentar”. Ele vai e a cena se repete. “Eu sou Vayu, Senhor do Vento, posso arrastar qualquer coisa”. Outra vez uma palha é jogada ao chão. “Vamos ver se você pode arrastar isso”. Ele não consegue, e retorna. Então Indra, o maior dos deuses védicos, se aproxima, mas, ao chegar perto, a aparição se desfaz e em seu lugar surge uma mulher, uma bela e misteriosa mulher, que se dirige aos deuses, revelando-lhes o mistério que fundamenta a eles próprios. “Este é o supremo mistério de todo o ser”, ela lhes diz, “do qual vocês próprios receberam os seus poderes. E Ele pode pôr em ação os seus poderes ou neutralizá-los, conforme deseje”. O nome hindu para esse Ser de todos os seres é Brahman, que é uma palavra neutra, nem masculina, nem feminina. E o nome hindu para essa mulher é Maya-Shakti-Devi, ‘Deusa Doadora de Vida e Mãe de Todas as Formas’. E nesse Upanixade ela aparece como aquela que ensina aos deuses védicos sobre o fundamento e a fonte suprema do seu próprio ser e dos seus próprios poderes.
Essa visão da Deusa como uma mulher doadora de formas e que sabe de onde elas provêm, ou seja, daquilo que está além do feminino ou do masculino, além do ser e do não-ser, do que é e ao mesmo tempo não é, que está além de todas as categorias da mente e do pensamento é completamente atual. Milênios de patriarcado e séculos de desenvolvimento tecnológico, não destruíram o aspecto essencial da divindade que surgiu às margens do Egeu. Campbell enxerga, diante das descobertas científicas, que a mitologia da Deusa tanto não morreu como esta voltando. Que ela não perdeu seu significado original, mas ganhou uma nova perspectiva mais abrangente.

A Deusa como matriz geradora de formas
A Deusa passa a ser compreendida não mais como apenas a Mãe-Terra que produz a partir da matéria, mas como a própria origem de tudo, a matriz, o campo que produz tudo, como no texto Upanixade. Segundo Campbell, as descobertas científicas não mataram o mito. “Ah, eu acho que o mito esta voltando. Há um jovem cientista, hoje, que esta usando a expressão ‘campo morfogenético’, o campo que produz formas. Eis o que a Deusa é, o campo que produz formas” (CAMPBELL, p. 179, 1990).
O jovem cientista ao qual Campbell se refere é Rupert Sheldrake, biólogo que sugere a existência de uma memória inerente a todo organismo, que ele chama de campo mórfico ou morfogenético. Um padrão de repetição que ocorre à medida que o tempo passa e que cada tipo de organismo forma uma memória específica, coletiva e cumulativa. De acordo com Sheldrake (1994), as regularidades da natureza são, dessa forma, habituais e as coisas são como sempre foram, o universo, por sua vez, é um sistema de hábitos em evolução. “Uma coisa que está clara”, diz Sheldrake, “é o fato de que o caos é feminino, e que a criação a partir do caos se parece com a criação a partir do útero, uma potencialidade que tudo contém e que emerge da escuridão” (p.73).

Por Luciana Carlos Celestino 
Referências
ABRAHAM, Ralph; McKENA, Terence; SHELDRAKE, Rupert. Caos, criatividade e o retorno do sagrado: triálogos nas fronteiras do Ocidente. Trad.: Newton R. Eichenberg. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1994.
CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. Trad.: Carlos F. Moisés. São Paulo: Palas Atena, 1990.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces.Trad.: Adail U. Sobral. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1995.
ELIADE, Mircea. Tratado de historia das religiões. Trad.: Fernando Tomaz e Matália Nunes. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
EISLER, Riane. O cálice e a espada: nossa história, nosso futuro. Trad.: Terezinha Santos. Rio de Janeiro: Imago, 1989.
GRAVES, Robert. A Deusa Branca: uma gramática histórica do mito poético. Trad.: Bento de Lima. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.



[1] Citado por Plutarco em sua obra Ísis et Osíris.
[2] Cujo nome deriva de Ganga, uma deusa. (CAMPBELL, 1999, p. 179)
[3] Grifo do autor.
[4] Grifo do autor.

domingo, 4 de março de 2012

O Eu-sombra e os Outros


Toda hora estamos todos ouvindo falar em trabalhar a sombra. Especialmente na Bruxaria, que tem por aspecto mais importante esse trabalho. Muitos a definem por essa busca de equilíbrio, ou tensão, entre a luz e a sombra. Para cada um, no entanto, definir a bruxaria é um caso particular e pessoal, assim como o trabalho da Arte deve ser. Mas, o que é a sombra? Jung, autor dessa definição do lado obscuro e negado do Ego (do Eu), a emprega como relativa ao que de inconsciente existe na alma humana, seu lado negado acima de tudo, o que para a personalidade é seu lado feio e terrível. Na busca da Individuação Jung diz que o trabalho com a sombra é extremamente importante.
Mas, para nós bruxos o que é a sombra? Citei a definição de Jung, primeiro por ter sido ele seu empregador mais frente em seus estudos, segundo porque é a definição de sombra que mais se aproxima da nossa. Sombra é, portanto, aquela nossa face que não se reflete em nós mesmos. E, se reflete até, porém na maioria das vezes não a observamos. Como quando o sol está a pino sobre nossas cabeças, nossa sombra real se posta sob nossos pés e acreditamos que ela não existe. Essa é uma ótima alegoria para esse fato. Luz, ou a crença dela em demasia, torna mais escondida ainda a sombra. Porém ela continua lá, existindo. A sombra é nosso lado negado como quer Jung, mas é também nosso lado escondido, não só de nós mesmos como dos que nos cercam. Saber o que é a sombra não é, afinal, tão difícil. Faz-se mais trabalhoso enxergá-la, esse ser da noite e do escuro, assim como aceitá-la e trabalhar com ela.
Enxergá-la é um fato curioso. Curioso porque, na minha opinião, é o único processo em que se pode realmente contar com os Outros, mesmo que apenas superficialmente. Podemos nos abrir para as críticas, para os apontamentos e a partir daí iniciar nosso trabalho. De fato, nesse caso os Outros terão papel até certo ponto ativo, porque nos processos seguintes esse papel é passivo, como veremos.
Se abertos estivermos a ouvir e ver pelos olhos dos outros, estaremos dando o primeiro passo no trabalho da sombra. Ora, os outros podem vê-la projetando-se, de certa forma melhor que nós. Ë muito engraçado ver alguém tentar alcançar sua própria sombra correndo até ela como um louco, como o louco do tarô. Ele nunca a alcançará de fato, pois que ela o acompanha sempre. Ela está ali, não há o que buscar. A sombra é você, seu reflexo no material. O reflexo que seu corpo, iluminado pela luz, lança nos sólidos. A sombra é seu movimento, sua parte inconsciente e seu duplo aspecto tosco, caricato, mas é você!
Sabendo que ela existe de fato e que o trabalho a ser feito não é de combatê-la ou elimina-la, como alguns podem pensar, sabemos agora que o trabalho com a sombra é algo mais sutil. Eu diria que o elemento de trabalho da sombra não é externo, como o corpo físico ou os corpos ao seu redor, diria que ele é interior. Diria que a luz da Lua Esotérica é seu elemento, o feminino é seu regente. Explico. Se observarmos a carta da força, no baralho de Marselha, temos lá uma mulher que delicadamente segura um leão pela boca. Ao contrário do que o título da carta pode sugerir, ela não lhe aplica uma força física, há ali em ação uma força muito mais sutil. E o fato de ser uma mulher a aplicá-la não é a toa. Esta mulher é a representação do feminino em ação, do feminino que existe em cada um de nós independente de nosso sexo. A força que devemos utilizar no trabalho com nossa fera interior, nossa sombra, é esta. É a força da passividade ativa. Aplicando-lhe uma força que não força.
No trabalho da sombra isso se traduz como uma domesticação dos “defeitos”, de uma convivência passiva e proveitosa de nossas forças internas. Nossa máscara, nossa persona como diria Jung, não é forjada apenas das luzes do sol, da lua e das estrelas, ela também se compões do obscuro crepúsculo, da imensidão do cosmo, do fundo escuro do mar. Ela, nossa máscara, é uma Deusa caprichosa e indomável, ou convivemos com ela, MOLDANDO-A, na sua maleabilidade divina, ou partimo-la em mil pedaços e fazemos outra para nós. Essa atitude, embora radical, muitas vezes se faz necessária. Como toda Deusa, nossa máscara não admite meios termos. As faces do grande diamante brilham todas ao mesmo tempo, mas cada uma reflete por sua vez. Isso torna muito difícil enxergarmos em nós nossa divindade. Nossa máscara é nossa chave para a evolução. Ora, o que já temos de correto e luminoso (É difícil não usar de dicotomia) já é em si divino, porque o que há em nós de obscuro e maléfico não o seria?
No entanto, é mister deixar claro que, não é porque a sombra e sua dicotomia - o mal, seja parte da Grande Divindade que esta face não precise de uns ajustes. Moldar o bem e moldar o mal de nossa máscara é um processo infinito, pois movendo a sombra movemos a luz.
Assim, aceitando esse fato, o de que existe em cada um de nós e em tudo uma sombra que o delineia, é preciso usar esse poder para elevar-nos em nosso caminho. Aqui o trabalho com a sombra ainda se faz através dos Outros, esses seres de energia passiva. Porque os outros são passivos?, poderia perguntar você, já que eles a toda hora se zangam com nossas falhas. Eu te responderia que a reação é mais que natural, é um lei da física. Os Outros são na realidade passivos porque são nossos espelhos. É nos Outros que nos enxergamos, sem os Outros não seriamos Nós. A relação Eu-Outro é muito debatida no meio psicanalítico, mas ela é um fato. Nossa sombra se projeta a nossas costas ante a luz do outro, mas ele também tem sombra, e esse jogo torna a experiência fascinante. Quanto mais luz você for, mas ofuscado se sentirá seu espelho e menos você se verá. Mistério do Caminho...

Entretanto, trabalhar com a sombra não é esperar que os Outros resolvam seus problemas. Trabalhar com a sombra envolve a maior força do universo, aquela que atrai, une, gera e concretiza: o amor. AH! Você poderia dizer. Então é só amar ao próximo! Não é só isso. Amar ao próximo sem amar a si mesmo não é algo que funcione bem. Só podemos amar os Outros quando pudermos amar a nós mesmos. Porque assim veremos nos espelhos, que são os Outros, todo o amor que temos. E sendo nós mesmos espelhos para os Outros, refletiremos esse amor pelo infinito das reproduções de imagens que se obtêm quando se colocam dois espelhos de frente.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O leve fardo


''Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminando a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.''

Assim a pintora mexicana Frida Kahlo descreve um estado alcançado por ela em decorrência de uma vida de sofrimentos, angústias e decepção amorosa. Mas também de elaboração disso tudo através da arte. Para conhecer a história dessa mulher fantástica vá AQUI.

Processos vários podem levar um ser humano a iluminação ou ao relâmpago que ilumina a noite escura da alma. Descreve-se como que uma fração de instante em que tudo se esclarece e a visão torna-se plena. Todo o conhecimento é dado "de uma só vez" e o sujeito a partir dali nunca mais será o mesmo. E tudo pode ser visto e compreendido e tudo é ao mesmo tempo, em unidade. A experiência, claro, transcende as palavras, mas Frida chegou perto da descrição, artista que foi, da aura numinosa do fenômeno. 

Talvez se assemelhe à compreensão de que ao sair da roda viva, ou melhor ao mater-se em seu núcleo de forma plácida e serena, se possa ver tudo com clareza e nitidez. Gosto da metáfora que fala que passamos a vida girando enlouquecidamente no vórtice do furacão, a iluminação seria a chegada a centro, ao olho do furacão, o lugar mais calmo, seguro e, onde toda a força se concentra e de onde se pode contemplar a roda da vida.

Mas o centro da mandala alucinada é justamente o local onde se acredita estar a destruição maior, e muitos passam a vida girando, perdidos na ilusão da passagem ininterrupta de coisas, fatos, pessoas. As vezes, como Frida, a eminencia constante de colapso, de morte e de aniquilação de si mesma pode transformar a morte na vida. Para ela a dor trouxe a iluminação.
Mas esse não é o único caminho.
Não temer o olho do furacão e ter coragem de correr exatamente para debaixo dele é a coragem exigida àqueles que desejam trilhar o caminho da sabedoria. E daí em diante ter força para carregar esse leve fardo pelas áridas terras desse "planeta dolorido".

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A importância mágica da limpeza



Não são poucas as pessoas que procuram desesperadamente resoluções para seus problemas, dentre eles a estagnação da vida e as doenças físicas. Antes de qualquer julgamento místico observo a pessoa a minha frente, e quase sempre ela está bem vestida, por vezes muito arrumada e ostentando roupas e artigos de luxo. Mas eu fico me perguntando se aquela mesma pessoa cheirando ou não a perfume chega em casa e simplesmente põe a roupa de dormir e vai para a cama. Se tenho que dar algum parecer faço primeiro perguntas como essa, quanto à sua limpeza pessoal e da casa. Além dos aspectos mais profundos dos problemas psíquicos e físicos, o problema pode residir na simples mudança de hábitos de higiene. Ocorre que muitas são as pessoas que não suspeitam das consequências de se levar para a cama o corpo e até as roupas com que andaram por todos os lugares da cidade, entrando em contato físico e energético com vibrações nem sempre benéficas. Estes miasmas se predem ao corpo físico tanto quanto ao corpo energético, assim como no plano psíquico.

A Higiene é fator primordial para a saúde nestes três planos: físico, energético e psíquico. A questão torna-se ainda mais grave quando se trata de pessoas sensíveis, médiuns ou espiritualistas, magos, bruxas, enfim todos aqueles que por prática constante e aprofundada têm maior sensibilidade a estas impurezas.
Desse modo, às pessoas que me procuram queixando-se de diversas amarras na vida, bem como de doenças, e nas quais detecto esse comportamento, como também aos caminhantes das sendas espirituais, sempre sugiro ou relembro a importância do banho antes de dormir (de preferência assim que chegar em casa), de jamais dispor a roupa com que vêem da rua sobre a cama, nem levar os sapatos para dentro do quarto. A higiene do leito também é importante, trocar a roupa de cama uma vez por semana, assim como as toalhas de banho.
Não preciso discorrer sobre a fundamental relevância da alimentação e a faxina interna também é saudável. Sugiro um dia de limpeza do organismo por meio da ingestão de maçãs e água somente. Pela manhã sempre beber um copo de água fresca e, se quiser, uma vez por semana tomar um copo de água morna com algumas gotas de limão ao acordar. O jejum tem igual valor se feito com moderação.

Sobre higiene da casa, muito há escrito em livros e sites da Internet, mas não custa lembrar que de nada adianta a casa estar arrumada e perfumada se não houver iluminação e ventilação. A energia vital, cósmica, o ki dos orientais, deve encontrar amplo meio de circulação e condições de chegar a todos os cômodos e recantos. A luz do sol é rica em prana, o alimento energético do mundo e o vento é o veículo da sabedoria.
Por fim, chamo a atenção para a limpeza psíquica que encontra grande aliada na meditação ou no silêncio. Alguns minutos diários de introspecção, silêncio e respirações profundas já são suficientes para uma mente mais serena e um corpo espiritual mais imune a ataques. 

A meditação é feita por meio de técnicas várias que devem ser buscadas conforme o tipo de mente e intenção. Então, sem neuroses desnecessárias e, independente do clima em que vivemos, a higiene física, psíquica e da nossa moradia é possível, requer apenas alguns minutos diários de nossa atenção. 






terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Uma poesia de férias procês



Por que quis Cris 

deixar de ser tola

e crescer.
Querer ser quis Cris.
E no vale distante,
por entre as flores falantes,
encontrou Cris a luz
de um alvorecer.
Cris e a luz conversaram sobre o ser.
O que é e não é?
Cris quis entender.
E partiu novamente, vagando a caminhante
em busca do saber...
Viu Cris
que saber também é crer.
E Cris quis mais do que ser
quis saber ser mais Cris
e crescer.

Poesiazinha infame. Luciana Celestino. Natal, 2012.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A solução para a Terra não cai do céu


Leonardo Boff em A solução para a Terra não cai do céu
Ed. Record, Rio de Janeiro, 2009.


Nossa civilização ocidental hoje mundializada tem sua origem histórica na Grécia do século VI antes de nossa era. Ruíra o mundo do mito e da religião que era o eixo organizador da sociedade. Para pôr ordem àquele momento crítico, fez-se, num lapso de pouco mais de 50 anos, uma das maiores criações intelectuais da humanidade. Surgiu a era da razão critica que se expressou pela filosofia, pela política, pela democracia, pelo teatro, pela poesia e pela estética. Figuras exponenciais foram Sócrates, Platão, Aristóteles e os sofistas que gestaram a arquitetônica do saber, subjacente ao nosso paradigma civilizacional: foi Péricles como governante à frente da democracia; foi Fídias da estética elegante; foram os grandes autores das tragédias como Sófocles, Eurípides e Ésquilo; foram os jogos olímpicos e outras manifestações culturais que não cabe aqui referir.

Esse paradigma se caracteriza pelo predomínio da razão que deixou para trás a percepção do Todo, o sentido da unidade da realidade que caracterizava os pensadores chamados pré-socráticos, os portadores do pensamento originário. Agora se introduzem os famosos dualismos: mundo-Deus, homem-natureza, razão-sensibilidade, teoria-prática. A razão criou a metafísica que na compreensão de Heidegger faz de tudo objeto e se instaura como instância de poder sobre este objeto. O ser humano deixa de se sentir parte da natureza para se confrontar com ela e submetê-la ao projeto de sua vontade.

Esse paradigma ganhou sua expressão acabada mil anos depois, no século XVI, com os fundadores do paradigma moderno, Descartes, Newton, Bacon e outros. Com eles se consagrou a cosmovisão mecanicista e dualista: a natureza de um lado e o ser humano de outro, de frente e encima dela, como seu “mestre e dono” (Descartes) e coroa da criação em função do qual tudo existe. Elaborou-se o ideal do progresso ilimitado que supõe a dominação da natureza, no pressuposto de que esse progresso poderia caminhar infinitamente na direção do futuro. Nos últimos decênios, a cobiça de acumular transformou tudo em mercadoria a ser negociada e consumida. Esquecemos que os bens e serviços da natureza são para todos e não podem ser apropriados apenas por alguns.

Depois de quatro séculos de vigência dessa metafísica, quer dizer, desse modo de ser e de ver, verificamos que a natureza teve que pagar um preço alto para custear esse modelo de crescimento/desenvolvimento. Agora tocamos nos limites de suas possibilidades. A civilização técnico-científica chegou a um ponto em que ela pode pôr fim a si mesma, degradar profundamente a natureza, eliminar grande parte do sistema-vida e, eventualmente, erradicar a espécie humana. Seria a realização de um armagedon ecológico-social.

Tudo começou há milênios na Grécia. E agora parece terminar na Grécia, uma das primeiras vitimas do horror econômico, cujos banqueiros, para salvar seus ganhos, lançaram toda uma sociedade no desespero. Chegou à Irlanda, a Portugal, à Itália, podendo-se se estender à Espanha e à França e, quiçá, a todo o sistema mundial.

Estamos assistindo à agonia de um paradigma milenar que está, parece, encerrando sua trajetória histórica. Pode demorar ainda dezenas de anos, como um moribundo que resiste, mas o fim é previsível. Com seus recursos internos não tem condições de se reproduzir.

Temos que encontrar outro tipo de relação com a natureza, outra forma de produzir e de consumir, desenvolvendo um sentido geral de interdependência face à comunidade de vida e de responsabilidade coletiva pelo nosso futuro. A não encetarmos esta conversão, ditaremos para nós mesmos o veredicto de desaparecimento. Ou nos transformamos ou desapareceremos.

Faço minhas as palavras de Celso Furtado, economista-pensador: “Os homens de minha geração demonstraram que está ao alcance do engenho humano conduzir a humanidade ao suicídio. Espero que a nova geração comprove que também está ao alcance do homem abrir caminho de acesso a um mundo em que prevaleçam a compaixão, a felicidade, a beleza e a solidariedade”. Mas à condição de mudarmos de paradigma.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Férias e Felicidade


Amigos da Casa Bruxal, estou de férias. Estou de férias de muitas coisas chatas e tristes, não só do trabalho. Finalmente a vida me deu férias!
Férias e Felicidade. 
Felicidade - descobri -, é um estado tão pleno que faltam, essencialmente, as palavras. E não é fugaz como dizem, pode ser sólida e maleável conforme nosso empenho em mantê-la sempre como uma chama acesa. 
Realmente tenho estado feliz e quero SER sempre feliz à luz dessa chama que veio iluminar a estrada escura que tenho trilhado. Agora o Caminho está iluminado e posso ver como ele é belo, florido, colorido, rico. Posso ver com clareza também os obstáculos, as armadilhas e os desafios, mas há asas nas minhas costas. E outro ser alado caminhando comigo.
Tudo parece infinitamente possível, simples e feliz.
Então, amigos leitores, esta casa está mais completa agora. Tenho O amor.
Desejo a todos um 2012 cheio dessa felicidade que tentei descrever aqui, nestas pobres e ineficientes palavras. Desejo que toda fartura e prosperidade que me foram permitidas sejam compartilhadas por vocês e que as de vocês cheguem a todos os corações que os cercam.
Abraços carinhosos e bençãos de luz.

sábado, 24 de dezembro de 2011

A verdadeira história do Natal


A humanidade comemora essa data desde bem antes do nascimento de Jesus. Conheça o bolo de tradições que deram origem à Noite Feliz

por Texto Thiago Minami e Alexandre Versignassi


Roma, século 2, dia 25 de dezembro. A população está em festa, em homenagem ao nascimento daquele que veio para trazer benevolência, sabedoria e solidariedade aos homens. Cultos religiosos celebram o ícone, nessa que é a data mais sagrada do ano. Enquanto isso, as famílias apreciam os presentes trocados dias antes e se recuperam de uma longa comilança.

Mas não. Essa comemoração não é o Natal. Trata-se de uma homenagem à data de “nascimento” do deus persa Mitra, que representa a luz e, ao longo do século 2, tornou-se uma das divindades mais respeitadas entre os romanos. Qualquer semelhança com o feriado cristão, no entanto, não é mera coincidência.

A história do Natal começa, na verdade, pelo menos 7 mil anos antes do nascimento de Jesus. É tão antiga quanto a civilização e tem um motivo bem prático: celebrar o solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que acontece no final de dezembro. Dessa madrugada em diante, o sol fica cada vez mais tempo no céu, até o auge do verão. É o ponto de virada das trevas para luz: o “renascimento” do Sol. Num tempo em que o homem deixava de ser um caçador errante e começava a dominar a agricultura, a volta dos dias mais longos significava a certeza de colheitas no ano seguinte. E então era só festa. Na Mesopotâmia, a celebração durava 12 dias. Já os gregos aproveitavam o solstício para cultuar Dionísio, o deus do vinho e da vida mansa, enquanto os egípcios relembravam a passagem do deus Osíris para o mundo dos mortos. Na China, as homenagens eram (e ainda são) para o símbolo do yin-yang, que representa a harmonia da natureza. Até povos antigos da Grã-Bretanha, mais primitivos que seus contemporâneos do Oriente, comemoravam: o forrobodó era em volta de Stonehenge, monumento que começou a ser erguido em 3100 a.C. para marcar a trajetória do Sol ao longo do ano.



A comemoração em Roma, então, era só mais um reflexo de tudo isso. Cultuar Mitra, o deus da luz, no 25 de dezembro era nada mais do que festejar o velho solstício de inverno – pelo calendário atual, diferente daquele dos romanos, o fenômeno na verdade acontece no dia 20 ou 21, dependendo do ano. Seja como for, esse culto é o que daria origem ao nosso Natal. Ele chegou à Europa lá pelo século 4 a.C., quando Alexandre, o Grande, conquistou o Oriente Médio. Centenas de anos depois, soldados romanos viraram devotos da divindade. E ela foi parar no centro do Império.

Mitra, então, ganhou uma celebração exclusiva: o Festival do Sol Invicto. Esse evento passou a fechar outra farra dedicada ao solstício. Era a Saturnália, que durava uma semana e servia para homenagear Saturno, senhor da agricultura. “O ponto inicial dessa comemoração eram os sacrifícios ao deus. Enquanto isso, dentro das casas, todos se felicitavam, comiam e trocavam presentes”, dizem os historiadores Mary Beard e John North no livro Religions of Rome (“Religiões de Roma”, sem tradução para o português). Os mais animados se entregavam a orgias – mas isso os romanos faziam o tempo todo. Bom, enquanto isso, uma religião nanica que não dava bola para essas coisas crescia em Roma: o cristianismo.

Solstício cristão


As datas religiosas mais importantes para os primeiros seguidores de Jesus só tinham a ver com o martírio dele: a Sexta-Feira Santa (crucificação) e a Páscoa (ressurreição). O costume, afinal, era lembrar apenas a morte de personagens importantes. Líderes da Igreja achavam que não fazia sentido comemorar o nascimento de um santo ou de um mártir – já que ele só se torna uma coisa ou outra depois de morrer. Sem falar que ninguém fazia idéia da data em que Cristo veio ao mundo – o Novo Testamento não diz nada a respeito. Só que tinha uma coisa: os fiéis de Roma queriam arranjar algo para fazer frente às comemorações pelo solstício. E colocar uma celebração cristã bem nessa época viria a calhar – principalmente para os chefes da Igreja, que teriam mais facilidade em amealhar novos fiéis. Aí, em 221 d.C., o historiador cristão Sextus Julius Africanus teve a sacada: cravou o aniversário de Jesus no dia 25 de dezembro, nascimento de Mitra. 
A Igreja aceitou a proposta e, a partir do século 4, quando o cristianismo virou a religião oficial do Império, o Festival do Sol Invicto começou a mudar de homenageado. “Associado ao deus-sol, Jesus assumiu a forma da luz que traria a salvação para a humanidade”, diz o historiador Pedro Paulo Funari, da Unicamp. Assim, a invenção católica herdava tradições anteriores. “Ao contrário do que se pensa, os cristãos nem sempre destruíam as outras percepções de mundo como rolos compressores. Nesse caso, o que ocorreu foi uma troca cultural”, afirma outro historiador especialista em Antiguidade, André Chevitarese, da UFRJ.

Não dá para dizer ao certo como eram os primeiros Natais cristãos, mas é fato que hábitos como a troca de presentes e as refeições suntuosas permaneceram. E a coisa não parou por aí. Ao longo da Idade Média, enquanto missionários espalhavam o cristianismo pela Europa, costumes de outros povos foram entrando para a tradição natalina. A que deixou um legado mais forte foi o Yule, a festa que os nórdicos faziam em homenagem ao solstício. O presunto da ceia, a decoração toda colorida das casas e a árvore de Natal vêm de lá. Só isso.

Outra contribuição do norte foi a idéia de um ser sobrenatural que dá presentes para as criancinhas durante o Yule. Em algumas tradições escandinavas, era (e ainda é) um gnomo quem cumpre esse papel. Mas essa figura logo ganharia traços mais humanos.

Nasce o Papai Noel


Ásia Menor, século 4. Três moças da cidade de Myra (onde hoje fica a Turquia) estavam na pior. O pai delas não tinha um gato para puxar pelo rabo, e as garotas só viam um jeito de sair da miséria: entrar para o ramo da prostituição. Foi então que, numa noite de inverno, um homem misterioso jogou um saquinho cheio de ouro pela janela (alguns dizem que foi pela chaminé) e sumiu. Na noite seguinte, atirou outro; depois, mais outro. Um para cada moça. Aí as meninas usaram o ouro como dotes de casamento – não dava para arranjar um bom marido na época sem pagar por isso. E viveram felizes para sempre, sem o fantasma de entrar para a vida, digamos, “profissional”. Tudo graças ao sujeito dos saquinhos. O nome dele? Papai Noel.

Bom, mais ou menos. O tal benfeitor era um homem de carne e osso conhecido como Nicolau de Myra, o bispo da cidade. Não existem registros históricos sobre a vida dele, mas lenda é o que não falta. Nicolau seria um ricaço que passou a vida dando presentes para os pobres. Histórias sobre a generosidade do bispo, como essa das moças que escaparam do bordel, ganharam status de mito. Logo atribuíram toda sorte de milagres a ele. E um século após sua morte, o bispo foi canonizado pela Igreja Católica. Virou são Nicolau.

Um santo multiuso: padroeiro das crianças, dos mercadores e dos marinheiros, que levaram sua fama de bonzinho para todos os cantos do Velho Continente. Na Rússia e na Grécia Nicolau virou o santo nº1, a Nossa Senhora Aparecida deles. No resto da Europa, a imagem benevolente do bispo de Myra se fundiu com as tradições do Natal. E ele virou o presenteador oficial da data. Na Grã-Bretanha, passaram a chamá-lo de Father Christmas (Papai Natal). Os franceses cunharam Pére Nöel, que quer dizer a mesma coisa e deu origem ao nome que usamos aqui. Na Holanda, o santo Nicolau teve o nome encurtado para Sinterklaas. E o povo dos Países Baixos levou essa versão para a colônia holandesa de Nova Amsterdã (atual Nova York) no século 17 – daí o Santa Claus que os ianques adotariam depois. Assim o Natal que a gente conhece ia ganhando o mundo, mas nem todos gostaram da idéia.

Natal fora-da-lei


Inglaterra, década de 1640. Em meio a uma sangrenta guerra civil, o rei Charles 1º digladiava com os cristãos puritanos – os filhotes mais radicais da Reforma Protestante, que dividiu o cristianismo em várias facções no século 16.

Os puritanos queriam quebrar todos os laços que outras igrejas protestantes, como a anglicana, dos nobres ingleses, ainda mantinham com o catolicismo. A idéia de comemorar o Natal, veja só, era um desses laços. Então precisava ser extirpada.

Primeiro, eles tentaram mudar o nome da data de “Christmas” (Christ’s mass, ou Missa de Cristo) para Christide (Tempo de Cristo) – já que “missa” é um termo católico. Não satisfeitos, decidiram extinguir o Natal numa canetada: em 1645, o Parlamento, de maioria puritana, proibiu as comemorações pelo nascimento de Cristo. As justificativas eram que, além de não estar mencionada na Bíblia, a festa ainda dava início a 12 dias de gula, preguiça e mais um punhado de outros pecados.

A população não quis nem saber e continuou a cair na gandaia às escondidas. Em 1649, Charles 1º foi executado e o líder do exército puritano Oliver Cromwell assumiu o poder. As intrigas sobre a comemoração se acirraram, e chegaram a pancadaria e repressões violentas. A situação, no entanto, durou pouco. Em 1658 Cromwell morreu e a restauração da monarquia trouxe a festa de volta. Mas o Natal não estava completamente a salvo. Alguns puritanos do outro lado do oceano logo proibiriam a comemoração em suas bandas. Foi na então colônia inglesa de Boston, onde festejar o 25 de dezembro virou uma prática ilegal entre 1659 e 1681. O lugar que se tornaria os EUA, afinal, tinha sido colonizado por puritanos ainda mais linha-dura que os seguidores de Cromwell. Tanto que o Natal só virou feriado nacional por lá em 1870, quando uma nova realidade já falava mais alto que cismas religiosas.

Tio Patinhas

Londres, 1846, auge da Revolução Industrial. O rico Ebenezer Scrooge passa seus Natais sozinho e quer que os pobres se explodam “para acabar com o crescimento da população”, dizia. Mas aí ele recebe a visita de 3 espíritos que representam o Natal. Eles lhe ensinam que essa é a data para esquecer diferenças sociais, abrir o coração, compartilhar riquezas. E o pão-duro se transforma num homem generoso.

Eis o enredo de Um Conto de Natal, do britânico Charles Dickens. O escritor vivia em uma Londres caótica, suja e superpopulada – o número de habitantes tinha saltado de 1 milhão para 2,3 milhões na 1a metade do século 19. Dickens, então, carregou nas tintas para evocar o Natal como um momento de redenção contra esse estresse todo, um intervalo de fraternidade em meio à competição do capitalismo industrial. Depois, inúmeros escritores seguiram a mesma linha – o nome original do Tio Patinhas, por exemplo, é Uncle Scrooge, e a primeira história do pato avarento, feita em 1947, faz paródia a Um Conto de Natal. Tudo isso, no fim das contas, consolidou a imagem do “espírito natalino” que hoje retumba na mídia. Quer dizer: quando começar o próximo especial de Natal da Xuxa, pode ter certeza de que o fantasma de Dickens vai estar ali.

Outra contribuição da Revolução Industrial, bem mais óbvia, foi a produção em massa. Ela turbinou a indústria dos presentes, fez nascer a publicidade natalina e acabou transformando o bispo Nicolau no garoto-propaganda mais requisitado do planeta. Até meados do século 19, a imagem mais comum dele era a de um bispo mesmo, com manto vermelho e mitra – aquele chapéu comprido que as autoridades católicas usam. Para se enquadrar nos novos tempos, então, o homem passou por uma plástica. O cirurgião foi o desenhista americano Thomas Nast, que em 1862, tirou as referências religiosas, adicionou uns quilinhos a mais, remodelou o figurino vermelho e estabeleceu a residência dele no Pólo Norte – para que o velhinho não pertencesse a país nenhum. Nascia o Papai Noel de hoje. Mas a figura do bom velhinho só bombaria mesmo no mundo todo depois de 1931, quando ele virou estrela de uma série de anúncios da Coca-Cola. A campanha foi sucesso imediato. Tão grande que, nas décadas seguintes, o gorducho se tornou a coisa mais associada ao Natal. Mais até que o verdadeiro homenageado da comemoração. Ele mesmo: o Sol.

Para saber mais
Religions of Rome - Mary Beard, John North; Cambridge, EUA, 1998
Santa Claus: A Biography - Gerry Bowler, McClelland & Stewart, EUA, 2005
www.candlegrove.com/solstice.html - Como várias culturas comemoram o solstício de inverno. 

Fonte:

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Cama na floresta



Há um mar de profundidade abismal no silêncio que me toma. Mergulhando-me em você. Pulsando com todo meu ser como uma nota musical. E tudo por segundos eternos.
Só aos poucos volto a ouvir um som indistinto, depois da tempestade elétrica que se abateu. E clareou a floresta.
Devagar abro os olhos, na meia luz.
O zumbido se transforma em música, um blues baixinho que demoro a identificar a origem. Suspiro e ainda sinto os últimos raios a percorrerem meu corpo. A música vem lá de fora. Vem do teu sorriso largo. Vem dos teus olhos. Vem do vento nas árvores e dos seres da noite.
Caio em teus braços. Amor quente e convidativo. Calmo e doce.
Outra onda de energia pulsante.
E suspiro, deixando meu corpo mergulhar na preguiça macia da nossa cama. E há teus braços ao meu redor e tua voz dizendo amor.
E há sempre o som da floresta lá fora.