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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sentimentos


Devia guardar seus sentimentos. Bem guardados. Sentimentos assustam.

Devia lembrar que as pessoas neste mundo estão acostumadas às máscaras frias de uma tragicomédia tão constante que se torna a única realidade possível. 

É preciso cuidado, cautela.

Ninguém quer que os sentimentos comandem o mundo em que impera a racionalidade, a assepsia, a luz ofuscante digital.  Não há tempo para isso. E quem se importa com isso?

Por isso devia guardar bem seus sentimentos. Deixe-os em casa, a rua é selvageria. Deixe-os num cofre, com segredo. Deixe-os embaixo do travesseiro.

Sentimentos assim não podem ser verbalizados. O verbo realiza. 

Devia deixar seus sentimentos enterrados onde houver ainda uma velha árvore. Lá, eles nutrirão as raízes, se perpetuarão incólumes. E a seiva o carregará para a copa, de onde sempre serão levados pelo vento, sussurrando ao ouvido de algum poeta, quem sabe um dia...

E nesse dia talvez ele escreva algo assim:

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
seu dorso frio é campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania*.

*Vinícius de Moraes