Ela sempre quis tocar o intangível. Louca, sempre foi considerada louca.
Desde criança, ela lembra, as pessoas tinham medo daqueles olhos grandes e penetrantes, porque as pessoas quase sempre são fracas. Sucumbem à arma mais letal como ao olhar mais fixo. Fogem, se escondem, viram o rosto para não verem, não serem vistas.
Ela não.
Onde havia o estranho, o contra-fluxo, a desobediência, a transgressão, o mundo desconhecido, a loucura da morte e do caos, era para lá sua atenção. O que a fascinava.
Ela sempre seguiu confiante para onde as rédeas são soltas, onde o vento toca a face do amor, onde o amor mergulha no rio da insanidade.
Por isso, agora estendia a mão delicada e branca para a maçaneta de metal escuro e abria a velha porta. Descendo a escadaria de pedra, vasculhando o porão abandonado.
Havia num canto, esquecido, um velho espelho emoldurado por um entalhe no carvalho. Um rosto ali... seria o dela mesma? Tão serena... que estranho... Os mesmos olhos marcantes... fixos na beira do precipício, fascinante e terrível!
Um medo mudo, sem descrição possível.
Ela acendeu um cigarro, deu um trago profundo, essa dor no peito! Seria já a morte?
Uma mulher, ela viu que havia uma mulher no velho porão sombrio. E cartas de tarô sobre um fundo negro de cetim. Que doce e forte música no ar!
“Destino tem um recado para você”, dizia o lamento das guitarras. Uma voz masculina repetia “não vá, não vá, não vá”. E a dor no peito aumentava. Vinha da alma, do amor ou da morte?
São esses malditos cigarros! E a voz não parava de gritar “stay beside me!” Tentou dizer "estou aqui!" E só ouvia o lamento estridente e urgente das guitarras...
