segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Hoje fiz um passeio socrático

Fui ao Shoping hoje, onde se encontra o cinema, onde eu assitiria um filme. Mas, quando lá cheguei, por volta das 15h, tive aquela mesma sensação que sempre tenho quando vou a um shopping lotado: tédio, um tédio mortal. Como ando sem tempo para postar por aqui, e peço aos meus leitores que tenham paciência, pois estou finalizando a tese, deixarei o ilustre Frei Beto falar por mim. Seu texto diz absolutamente tudo do sentimento que vem me tomando cada vez mais... será a idade?

PASSEIO SOCRÁTICO
Frei  Betto
 
 Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do  Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares,  preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já  haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois  modelos produz felicidade?'
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à  aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...'. 'Que tanta coisa?', perguntei... . 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!'
Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual... Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...
A palavra hoje é 'entretenimento' . Domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, ­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem se desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor.. Aliás, para uma boa saúde mental, três requisitos são indispensáveis: amizades,  auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há  mendigos, crianças de rua, sujeira pelas  calçadas...

Entra-se naqueles claustros  ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos  de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito,  entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno.... Felizmente, terminam todos na  eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo  hambúrguer do Mc Donalds...

Costumo  advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático. Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro  comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!"
 

5 comentários:

  1. Shopping Center é uma das piores invenções... as pessoas se sentem seguras lá (o que não é verdade, veja os assaltos da Tiffanys bem recentes), se sentem acolhidas, mas na verdade todos estão lá para te vender algo, comida, roupas, diversão... e para qualquer capital são lugares sem graça com a mesma cara, as mesmas escadas rolantes e pessoas "zumbizando" pelos corredores. Mentes inquietas, pensantes e revolucionárias preferem ir ao cemitério conversar com os mortos e respirar um pouco de paz e quietude do que passear no shopping.

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  2. oi Jopz. Cemitério nem tanto, mas um parque, em meio a natureza é bem melhor :D ehehehe
    Obrigada pelos seus comentários
    Abraços

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  3. Oi bruxa, procurando pelo Conselho Kármico achei teu blog e já virei fã. Excelente post.

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  4. Odeio shoppings justamente por causa desse tédio consumista e vazio que as pessoas materialistas exalam. Prefiro muito bem comprar o que preciso perto de casa. Muito bom o seu texto. Abraços.

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  5. Contamos com todos aqueles que conversam e muito com os Oráculos, queremos saber agora... Quem fala com você?

    http://delakasa.blogspot.com/2010/10/quem-fala-com-voce.html

    Beijos,

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