domingo, 9 de janeiro de 2011

Aaah a Verdade...


Allah Hu Akbar! Allah Hu Akbar!
Deus criou a mulher e com ela criou a fantasia. Foi assim que um dia a Verdade, coberta apenas com um véu transparente, chegou às portas de um lindo palácio, desejosa de conhecê-lo por dentro. Quando soube que essa mulher nua, coberta apenas por um véu, chamava-se Verdade o sultão Haroun Al-Raschid não permitiu que ela entrasse em seu palácio. “Imagine o que ia ser de mim e de todos aqui se a Verdade aparecesse diante de nós? Estaríamos todos perdidos, sem exceção”, disse ele, alarmado. A Verdade então partiu triste. Mas...

Deus criou a mulher e junto com ela criou a teimosia. E a Verdade, não se dando por vencida, cobriu-se dos pés a cabeça com peles grosseiras, deixando apenas o rosto de fora e foi tentar entrar no palácio. Quando o guarda viu aquela mulher horrivelmente vestida quis saber seu nome o que ela queria. Ao que ela respondeu: “sou a Acusação e exijo uma audiência com o grande senhor do palácio”. O sultão tremeu de medo ao saber que a mulher mal vestida que queria entrar em seu palácio se chamava Acusação. “Nem pensar. Já imaginou o que seria de mim e de todos aqui se a Acusação entrasse nesse palácio? Estaríamos todos perdidos, sem exceção”. E mais uma vez mandou a Verdade embora. Mas, a Verdade não se deu por vencida, pois...

Deus criou a mulher e junto com ela criou o capricho. A Verdade então buscou pelo mundo as vestes mais lindas, feitas de veludo, brocados e bordados de fios multicolores. Enfeitou-se com magníficos colares de pedras preciosas, brincos e pulseiras do mais fino ouro e perfumou-se com essência de rosas. Cobriu o rosto com um véu bordado de fios de seda dourados e prateados e lá foi tentar entrar no palácio do sultão Haroun Al-Raschid. Quando o guarda do portão viu aquela mulher deslumbrante como a Lua, perguntou quem ela era. E a Verdade respondeu com voz melodiosa: “eu sou a Fábula e gostaria de encontrar-me com o sultão deste palácio”.

Os olhos do sultão brilharam quando ele soube que uma mulher tão linda quanto uma rainha se chamava Fábula e deseja entrar em seu palácio. “Mas que grande notícia! Para que ela seja recebida como merece, ordeno que cem escravas a esperem com presentes magníficos, flores perfumadas, danças e músicas festivas”.

Então as portas do grande palácio de Bagdá se abriram graciosamente e por elas finalmente a bela andarilha foi convidada a passar. E foi desse modo que a Verdade, vestida de Fábula, conseguiu conhecer um grande palácio e encontrar-se com Haroun Al-Raschid, o mais fabuloso sultão de todos os tempos.

Conto: Uma Fábula sobre a Fábula
Minha vida querida - Malba Tahan

3 comentários:

  1. POIZÉ, a verdade as vezes pode ser insuportável. Mas ainda bem que inventaram a psicanálise, esse teatro mágico, pequeno templo das verdades... ou não.

    JOPZ

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  2. adorei! vou guardar para contar a alguém.

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